quinta-feira, 10 de julho de 2014

LUTERO - O FUNDADOR DO PROTESTANTISMO

Quem foi Martinho Lutero ?

O FREI MARTINHO LUTERO


Elevando-se muito acima de todos os outros chefes na grande convulsão religiosa do século dezesseis, está a figura vigorosa do descalço monge agostiniano de Wittenberg, Martinho Lutero. A sua inflamada denúncia dos abusos reinantes na Igreja do seu tempo, e o seu tonitruante clamor por uma reforma, por muito tempo foram temas favoritos para escritores. A sua ação tempestuosa em cindir a unidade histórica do cristianismo formulando os princípios básicos que estavam destinados a trazer à existência não somente o Luteranismo, mas também muitas outras seitas, granjearam para ele o título de Fundador do Protestantismo.



É ele uma das figuras mais controvertidas na história. Por muitos protestantes ele é saudado como um destemido campeão da liberdade religiosa, como um intrépido reformador que levou a Bíblia ao povo e tornou Cristo, de preferência à Igreja, central na vida do povo alemão. Ele é pintado como um homem de vida irrepreensível, consumido pela paixão da verdade e da justiça. Em suma, é o maior herói e o santo mais perfeito do protestantismo.



Embora concedendo que os clamores dele aceleraram os esforços pela reforma, os católicos têm-no geralmente considerado como um monge rebelde, grosseiro, vulgar e beberrão, como um oportunista inescrupuloso que obteve sucesso explorando a cobiça de príncipes seculares e especialmente a desenfreada concupiscência do seu principesco protetor Filipe, o Landgrave de Hesse. Ele é pintado como orgulhoso, teimoso e emotivamente versátil, como um sacerdote que escandalizou a cristandade calcando, aos pés os seus votos para se casar com uma freira desertora, sacerdote que solapou a moralidade fazendo a salvação depender exclusivamente da fé, sem ligar nenhuma importância à vida individual.



Lutero é geralmente considerado pelos católicos como um estranho misto de orgulho, luxúria, insobriedade e heresia - a maior catástrofe a afligir a cristandade desde o estabelecimento desta. Suscitando o cisma que afastou milhões de homens da antiga fé, ele é considerado uma espécie de cópia humana de Lúcifer rebelde levando para o inferno incontáveis multidões de anjos.

CURANDO VELHAS FERIDAS

Quando dois veredictos diferem tão radicalmente, o leitor imparcial dificilmente pode deixar de perguntar-se se ambos os lados não trouxeram ao estudo do caso os seus próprios pontos de vista, sentimento e antagonismos, para a apreciação da evidência e formulação da conclusão. Por quatro séculos a discussão sobre Lutero caracterizou-se pelo azedume, pelo ódio e pela discórdia, servindo largamente para aprofundar a brecha na unidade cristã. Certamente, chegado é o tempo de abordar o assunto de maneira calma, pacífica e desapaixonada, para ver se um estudo objetivo da vida e da obra dele pode levar pelo menos a uma apreciação mais acurada e a um possível passo no sentido da reaproximação, e mesmo da reunião final.


O impacto de duas guerras mundiais, a elevação ao poder de um nazismo pagão, e a ameaça de tragamento pelo ateísmo agressivo dos comunistas acabaram por fazer ver os luteranos e aos católicos da Alemanha o trágico preço que eles pagaram por não terem sido capazes de formar um círculo fechado por trás da Cruz de Cristo. Essa verificação ocasionou uma nova reaproximação, e as suas grandes corporações de cristãos estão agora rezando diariamente para que dentro em breve possam, cumprir a prece de Cristo, "que eles sejam um, como tu, Pai, em mim e eu em ti!".



O progresso do movimento ecumênico através da Europa e da América atesta, ademais, o progresso da convicção de que à divisão e a discórdia privaram o cristianismo do seu poder de fazer frente à ameaça de outra guerra mundial, e lhe diminuíram a capacidade de tratar todos os problemas de caráter universal. Há uma crescente compreensão de que a nossa desunião produziu milhões de pessoas indiferentes e sem igreja, e fez o jogo nas mãos dos nossos inimigos comuns. Tudo quanto sarar as feridas no Corpo Místico de Cristo e levar os seus filhos de há muito separados a rezarem e a trabalharem pela unidade, é imensamente mais frutuoso do que uma renovação de velhos agravos e inimizades. Citaremos sempre quando possível historiadores protestantes.

PRIMEIROS ANOS


Martinho Lutero nasceu a 10 de novembro de 1483, em Eisleben, Alemanha. Primeiro dos sete filhos nascidos de Hans Luther e Margaret Ziegler, ele foi batizado no dia seguinte, festa de S. Martinho cujo nome recebeu. Seis meses mais tarde a família mudou-se para a vizinha cidade de Mansfeld, onde o pai ingressou na mineração. Aqui Martinho frequentou a escola até que, aos quatorze anos de idade, foi para a escola da catedral em Magdeburgo e, um ano depois, para a escola Gregoriana em Eisenach.



Em 1501, aos dezoito anos, foi para a vizinha Universidade de Erfurt, para satisfazer o desejo de seu pai e estudar direito. Era costume, naquele tempo, preparar o estudo de direito pelo estudo da filosofia, e assim Martinho Lutero frequentou as aulas de Trutvetter e Arnoldi, expoentes do nominalismo então dominante em Erfurt. Na festa da Epifania em 1505, recebeu o grau de mestre de artes, figurando em segundo lugar numa classe de dezessete.



Em maio do mesmo ano, começou Martinho o estudo de direito. No dia 02 de julho, um quente domingo, ele e um amigo voltavam para Erfurt, quando uma violenta tempestade os colheu perto da aldeia de Sotterheim. Um raio matou o companheiro ao lado de Lutero. Preso de terror, ele clamou: "Sant'anna, ajudai-me! Far-me-ei monge!”. Quinze dias depois, com 22 anos de idade, ele foi juntar-se aos eremitas de Santo Agostinho em Erfurt. O passo foi dado contra os desejos de seu pai, a quem ele explicou ter sido chamado ao claustro "por uma terrificante manifestação do céu". Martinho era um moço sério, impulsivo e algo melancólico, e é provável que muitas vezes houvesse cogitado de ingressar na vida religiosa, mas hesitasse por causa da oposição do pai. O incidente simplesmente lhe forneceu fundamentos para pôr em execução o seu plano, por haver ele compreendido que o passo devia refletir a sua própria liberdade e o seu resoluto assentimento.

A ORDENAÇÃO DE LUTERO


Tais foram os motivos que impeliram Lutero a dar o seu súbito e inesperado passo, conforme exposto por muitos entendidos, inclusive os seus contemporâneos Melanchthon e Cochlaeus. Porém mesmo aqui as opiniões divergem, e o próprio testemunho de Lutero contende. Numa certa escrita, muitos anos depois, ao pai, explicando a sua defecção da Igreja, ele escreve: Quando fiquei aterrorizado e oprimido pelo medo da morte iminente, fiz um voto involuntário e forçado. (De Wette, Dr, Martin Luther's Briefe, II, Berlin 1825, 101).



Mas em outro lugar ele designa motivo diferente. Descrevendo a extrema severidade da sua vida doméstica, na qual virtualmente as alegrias da infância lhe foram desconhecidas, ele diz como seu pai certa vez lhe bateu tão impiedosamente, que fugiu de casa, e ficou tão prevenido contra ele, que ele teve de me ganhar para si outra vez. (Tischreden, Frankfort, 1567, fol. 314ª) Sua mãe por causa de uma insignificante noz bateu-me até escorrer sangue, e essa dureza e severidade da vida passada com eles foi que subsequentemente me forçou a fugir para um convento e fazer-me monge. (Tischreden, Frankfort, 1567, fol. 314ª).



Completado o noviciado em 1506, Lutero fez a sua profissão e, após apenas um ano de estudo teológico, foi ordenado sacerdote. No outono de 1508 foi enviado para a recém fundada Universidade de Wittenberg, onde ensinou filosofia e dialética e continuou os seus estudos teológicos, obtendo o bacharelato em teologia a 09 de março de 1509. Então foi chamado de volta a Erfurt, para ensinar no mosteiro.



Por trás desse desenvolvimento aparentemente normal e pacífico houve graves batalhas interiores, uma molesta obsessão de profunda pecaminosidade e corrupção, em um terror do juízo de Deus. Para vencer estas dificuldades e alcançar perfeição, Lutero recorreu a uma mortificação excessiva, a vigílias, orações e jejuns. Em certas ocasiões ele teria jejuado três dias seguidos sem engolir uma migalha. Às vezes, ter-se-ia desvencilhado das cobertas que lhe eram permitidas até quase gelar. Porém a inquietação interior, a desolação e o pânico elevaram-se até a um sentimento de desespero, que se originou da convicção de não poder ele vencer em si mesmo o senso do pecado.

ESCRUPULOSO E MELANCÓLICO

Não quer isso dizer que Lutero fosse pecaminoso ou lutasse com hábitos pecaminosos contraídos no passado, ou que fosse mesmo mundano. Os anos da sua juventude tinham sido passados numa vida séria e limpa, de modo que ele não experimentara conflitos sexuais fora dos comuns a qualquer moço. O que o torturava como um sentimento de pecaminosidade era a oposição interior do homem decaído, onerado do pecado original, contra a lei de Deus, e a falta de harmonia interior e de segurança do seu perfeito amor a Deus e da sua salvação.




Ele sofria de uma extrema escrupulosidade, agravada pelo sentimento de abandono por Deus, o qual lhe acarretava as terríveis torturas do desespero espiritual. Essas torturas, escreveu Lutero,eram tão grandes e tão infernais, que nenhuma língua pode descrevê-las. (Weimar Edição. I, 557 f.; edição Erlangem, II 180 f.). Durante esses períodos de angústia espiritual, Lutero frequentaria o confessionário de Staupitz, confessando-se durante seis horas numa só ocasião. Cansado do intérmino requisitório, Staupitz teria exclamado: Homem, Deus não está zangado com o sr. O sr. é que está zangado com Deus. O sr. não sabe que Deus lhe manda ter esperança?



Como todas as vítimas do escrúpulo, Lutero não se contentou com seguir com confiança e paz o sábio conselho do seu confessor. Criou novas penitências, não raro de caráter extremo, as quais só fizeram aumentar-lhe a agonia. Por vezes ele teria desprezado recitar o seu Ofício diário, obrigação que ligava sob pena de pecado mortal, para conceder tempo mais amplo ao estudo. E então, num profundo remorso, ter-se-ia trancado na sua cela, abstendo-se de comer e beber, e torturando-se e mortificando-se de tal forma, que não só o fez vítima de insônia por cinco semanas, uma vez, como também o ameaçou de loucura (Seckendorf, Ausführliche Historie des Lutherthums, Leipzig, 1714, I, fol. 21 b.).



Incapaz ou não desejando haurir confiança infantil na perdoadora misericórdia de Deus, Lutero pensou em lhe aplacar a ira pela sua própria retidão e pela eficácia das obras servis. Tal procedimento acarretou-lhe um desânimo sem esperança e uma desconfiança taciturna, criando uma condição em que ele realmente odiava a Deus e estava zangado com ele, em que blasfemava contra Deus e até lastimava ter nascido. Semelhante ascetismo hipocondríaco produziu nele uma melancolia cismadora e uma depressão física e espiritual. Anos mais tarde, por um curioso processo de raciocínio, ele atribuiu isso ao ensino da Igreja concernente às boas obras, conquanto todo o tempo vivesse em direta oposição ao código doutrinal e disciplinar dessa mesma Igreja.


ORIGEM DO COMPLEXO


O normal e sadio desenvolvimento da vida religiosa de Lutero foi, assim, dificultado por um pronunciado complexo de escrupulosidade, agravado por melancolia e desespero. Qual foi a origem desse complexo? Essa condição neurótica ou psicopática pareceria ligar-se à sua vida doméstica excessivamente austera e rigorosa, e à sua primitiva vida escolar. As descobertas da psiquiatria moderna revelam a personalidade fendida, as cicatrizes psíquicas e as desordens emocionais que se originava de uma infância privada de amor e de um senso de segurança e de ser necessário.



Em aditamento a esses fatores circundantes havia evidentemente tendências inatas para instabilidade emotiva e para melancolia. Em vários lugares, Lutero menciona que a sua inclinação para a melancolia era inata. A sua descrição (das suas torturas íntimas) ajusta-se tão bem a um reconhecido tipo de doença mental, diz o protestante R. H. Bainton, que a gente é tentado de se perguntar se o seu distúrbio deveria ser considerado como proveniente de autênticas dificuldades religiosas, de deficiências gástricas ou glandulares (Here I stand, Abingdon- Cokesbury Press, N. Y., 1950). Após uma viagem a Roma em 1510 para trato de negócios da sua Ordem, Lutero regressou a Erfurt. O seu superior religioso, Staupitz, mandou-o então para Wittenberg, onde ele obteve o doutorado em teologia no ano seguinte. Como Staupitz fosse obrigado a empreender várias viagens em ligação com a administração da Ordem, transferiu a Lutero o seu professorado em Escritura.



Numa reação contra as suas antigas tentativas de alcançar a perfeição pelo poder do seu próprio livre-arbítrio com o uso de meios de salvação externos, Lutero foi ao extremo oposto. Convicto da completa corrupção da natureza humana pelo pecado, e da natureza insuperável da concupiscência, que ele entendia no sentido de obstinação natural, concluiu que todos os atos humanos, por melhores que pareçam, na realidade são pecados mortais. Isto é o resultado do pecado original, alojado no homem como uma direção pecaminosa da vontade, que o prende ao mal e o torna incapaz de qualquer coisa realmente boa.

A DESCOBERTA DE LUTERO


Com essa sombria convicção instaurada em si, mais clamorosa se tornou a questão: Onde acharei um Deus misericordioso? Estudando a Epístola aos Romanos, nos meses de inverno de 1512 a 1513, ele pensou ter achado a resposta. Estava esta no versículo dezessete do capítulo primeiro, onde S. Paulo declara: "O justo vive da fé". Aqui estava a chave que resolveria toda a sua angústia íntima e todas as suas questões torturantes. Essa chave era: justificação por meio de Deus pela fé. Essa simples frase de S. Paulo tornou-se para Lutero, como ele o faz notar, a porta para o paraíso. 



Isto veio a ser o fundamento para a sua nova teoria da salvação, a pedra angular da nova religião que ele ia estabelecer. O homem pode ser salvo pela fé apenas. A justificação é conferida ao homem pela graça de Deus. Incapaz de fazer quer o que seja para cooperar, o homem pode apenas submeter-se, numa fé confiante, à mão de Deus, e deixar o amor de Deus inundar-lhe a alma. Essa fé infantil na infinita bondade e misericórdia de Deus é que permite a Deus operar livremente na alma: é essa a coisa que unicamente justifica o homem.



É a fé em Cristo que torna nossos os méritos dele, que nos envolve na veste da justiça e compensa por cada defeito. Seja pecador e peque fortemente, declarava Lutero, mas tenha fé ainda mais forte e alegre-se em Cristo, que é o vencedor do pecado, da morte e do mundo. Nem por um momento imagine que esta vida é o lugar de habitação da justiça: o pecado deve ser cometido. Para vós deve ser suficiente que reconheçais o Cordeiro que tira os pecados do mundo; o pecado não pode separar-vos dele, mesmo que cometais adultério cem vezes ao dia e cometais outros tantos morticínios(Enders, Briefwechset, III, 208).



Essa nova doutrina de Lutero forneceu uma solução para o conflito interior que lhe estivera causando intensa angústia e o trouxera às profundezas do desespero e mesmo às próprias bordas da loucura. Rejeitando peremptória e completamente a importância que outrora ligara às suas atormentadoras mortificações, penitência e boas obras no processo da justificação, agora ele acha alegria na convicção de ser salvo pela simples operação de Deus. Tal confiança e conhecimento da graça divina, declarou jubilosamente, torna uma pessoa alegre, ousada e jovial para com Deus e para com toda a criação. Isto é o que o Santo Evangelho faz pela fé. ( Edição Erlanger, LXIII, 125).



Aqui estava a ruptura das penosas cadeias daquele complexo de escrupulosidade que por tanto tempo o engolfara em cismadora melancolia, em profundo terror. Agora lá se fora à necessidade dos jejuns, dos açoites e de outras penitências que haviam feito da sua via espiritual um pesadelo. Na fé infantilmente confiante em Deus a sua salvação estava assegurada. Quando a sua teoria incidiu em temerária colisão com a afirmação de S. Tiago de que assim como o corpo sem o espírito é morto, assim também a fé sem as obras é morta, (II, XXVI) logo ele chamou a essa epístola uma verdadeira epístola de palha e rejeitou-a de todo.

Focalizando a sua atenção na salvação das almas individuais por meio da fé do Redentor, Lutero desdenhou o papel poderoso a ser desempenhado pela Igreja na cristianização do mundo. Para ele a Igreja tornou-se algo de invisível, a congregação daqueles que experimentaram a salvação em si mesmos. Uma vez que Deus dirige por si mesmo todas as coisas e opera imediatamente no interior dos homens, não há necessidade de uma comunidade visível, com guias visíveis e mediadores visíveis entre Deus e o homem.

Cristã acusada de blasfêmia no Paquistão
Nesta atitude fundamental de Lutero, assinala Konrad Algermissen, achamos os motivos para a sua terrível batalha contra a hierarquia da Igreja e para os seus destemperados insultos ao Papa. Não eram tantos os abusos eclesiásticos do seu tempo que a impeliam a combater a autoridade eclesiástica. O seu olhar, dirigido totalmente para a sua própria vida interior, a princípio não se preocupou muito com esses abusos. A sua convicção da exclusiva operosidade de Deus no homem, a qual fez a doutrina da cooperação do homem na sua própria salvação aparecer como algo de blasfemo, deve ter visto na doutrina da Igreja como meio estabelecido de salvação e mediadora das graças algo que cheirava a anti-Cristo e a anti-Deus (Christian Denominations, B. Herder Book Co., St. Louis, 1946, p. 747).


ÓDIO DO PAPA

Isto explica a razão pela qual ele considerava o papado como uma invenção do diabo, e o Papa como verdadeiro anti-Cristo. Sobre o Papa ele vomita toda a vulgaridade da zombaria e do escárnio ditada pela sua natureza de grosseiro camponês alemão e pela sua impetuosidade apaixonada. O Evangelho, exclama ele, não tem inimigos mais violentos ou mais raivosos do que o Papa com seus padres e suas universidades (Konrad Algermisen, ibidem, p. 748). Portanto, o seu ódio ao Papa originava-se não somente da sua posterior excomunhão por ele, mas também das profundas molas do seu credo religioso. Ataquei o ensino, declarava ele, e arranquei com os dentes o coração do Papa. Não acredito que o Papa renasça. O artigo sobre a justificação arrancou pela raiz o fulgor do Papa. (Konrad Algermissen, ibidem, p. 748).



Em vez da Igreja com seu Papa, seus bispos e seus padres, a única coisa necessária é o conveniente anúncio da doutrina da justificação pela fé. Porém toda pessoa remida em Cristo é chamada a esta obra: cada um é, igualmente, chamado ao sacerdócio de Cristo. Há somente este sacerdócio geral. De acordo com Lutero, a palavra de Deus que confere a fé é o meio essencial da graça e da salvação. O ato central no culto divino não é o Sacrifício Eucarístico, e sim o sermão. Daí tomar o púlpito o lugar até então ocupado pela Eucaristia.



Já que os sacramentos não passam de confirmações visíveis da justificação que foi efetuada pela palavra de Deus em fé, podem eles ser largamente dispensados. A princípio Lutero só admitia três sacramentos: o batismo, a penitência e a Eucaristia. Mais tarde admitiu somente o batismo e a Eucaristia como o cumprimento, no Novo Testamento, daquilo que fora simbolicamente prefigurado na circuncisão e no ato de comer o cordeiro pascal.



Essas foram às idéias básicas que se destacaram com crescente clareza no novo mundo de crença de Lutero desde o inverno de 1512. Nas suas aulas ele ventilara a sua crescente repugnância a meios externos de salvação, nos quais não achara alívio para as suas próprias necessidades. Criticava abertamente as superstições ligadas à veneração dos santos, ao excessivo número de indulgências e de dias de festa, à abundância de cerimônias e de jejum compulsório. A sua crítica estendeu-se ao preparo de padres e de monges, à inutilidade dos estudos filosóficos escolásticos, e a Roma. Já granjeara ele um considerável séquito.



Acima podemos ler o desenvolvimento da vida espiritual de Lutero e o mundo das suas idéias. Assim podemos compreender as forças que o moveram a novas decisões quando mais tarde o foco estava sobre ele. Vimos os motivos ocultos e as convicções íntimas que deviam impeli-lo e sustentá-lo na grande rebelião que ele devia desempenhar o papel principal. O palco estava armado e o pano tremulante esperava apenas o sinal para ser levantado.
A REVOLTA PRINCIPIA


Esse sinal foi dado pela pregação de indulgências por Tetzel. Leão X estava levantando fundos para a construção da nova basílica de S. Pedro, e renovara uma bula de indulgências destinada a estimular os donativos para essa obra. Desde agosto de 1513 Alberto de Brandenburgo, o filho, de vinte e três anos, do grande eleitor de Brandenburgo, João Cícero, era Arcebispo de Magdeburgo e também, desde setembro do mesmo ano, administrador da Sé de Halberstadt. Em março seguinte, por morte do Arcebispo de Mogúncia, foi ele escolhido para essa Sé tradicional, então a mais influente na Alemanha (Na reforma, dezoito bispados e arcebispados na Alemanha foram ocupados por filhos de príncipes muitos dos quais infelizmente eram mundanizados e pouquíssimo zelo tinham pela almas).



O Papa Leão X e a Cúria rejeitaram essa indecorosa acumulação de benefícios e de altas funções eclesiásticas nas mãos de um príncipe tão moço. Mas o irmão de Alberto, o eleitor Joaquim de Brandenburgo, exerceu grande pressão em Roma para conseguir a confirmação Papa à eleição de seu irmão como Arcebispo de Mogúncia. O seu intento era puramente político. Concentrando todo esse poder na casa de Brandenburgo, ele pensava que eles seriam capazes de reprimir a preponderância política do eleitorado de Saxônia.



Em aditamento a várias outras pressões exercidas por Joaquim sobre a Cúria em Roma estava o oferecimento de uma taxa extraordinária de 10.000 ducados (Um ducado valia cerca de 2,30 dólares). Depois de muitos protestos e de prolongada resistência, Roma finalmente cedeu. Em agosto de 1514, Leão X confirmou o jovem príncipe como Arcebispo de Mogúncia e de Magdeburgo, e como administrador de Halberstadt. Alberto tomou de empréstimo a importância inteira a casa bancária de Fugger em Augsburgo.



Para ajudá-lo a liquidar essa dívida, a Cúria concedeu-lhe, por oito anos, privilégio exclusivo de pregar a indulgência para a construção da basílica de S. Pedro em Roma nos domínios dos seus três bispados e da casa de Brandenburgo. Durante esse período todas as outras indulgências naqueles territórios foram rescindidas. Após a dedução das despesas, metade dos fundos coletados tinham de ir para Roma para a construção da basílica de S. Pedro, e metade para Alberto liquidar a sua dívida.

MISTURA INFELIZ


Talvez nenhuma doutrina da Igreja seja mais mal entendida do que a das indulgências. Contrariamente à impressão de muitos, uma indulgência não significa um perdão para o pecado, e muito menos uma licença para cometer o pecado. Ela é simplesmente a remissão no todo ou em parte, da pena temporal a ser sofrida nesta vida ou no purgatório, depois que a culpa foi removida mediante uma confissão contrita. A oferta de uma esmola para uma causa digna, prescrita apenas como uma boa obra suplementar para o ganho de uma indulgência, durante o período da pré-reforma não raras vezes foi super encarecida.



Daí nasceu a um grupo de traficantes de indulgências que pouco ou nenhum interesse tinham em obter as necessárias condições interiores de pesar e emenda, e que só se preocupavam com recolher quanto mais dinheiro pudessem. Não faltavam, entretanto, na Igreja, homens sérios que condenavam esses abusos. Já muito antes, em 1513, o Cardeal Ximenes os proibiria na Espanha. Do mesmo modo Jorge da Saxônia proibiu-os no seu território.



Assim, uma vez que as indulgências não eram anunciadas na Saxônia, muita gente procedente de Wittenberg vinha à vizinha cidade de Jueterborg para ouvir os sermões de Tetzel e ganhar indulgência. E, quando alguns desses foram confessar-se com Lutero e lhe mostraram as cartas de indulgência que haviam recebido, foi que ele decidiu agir. Na véspera da festa patronal da igreja de Todos os Santos em Witenberg, o sábado 31 de outubro de 1517, Lutero pregou nas portas desta igreja, que era também a igreja da corte e da universidade, noventa e cinco teses latinas concernentes ao pecado, à penitência, à indulgência e ao purgatório, para o fim de incitar a uma discussão oficial.



ERRO FATAL

A porta dessa igreja servia como quadro de avisos da universidade, no qual eram fixadas notícias de discussões e funções acadêmicas. Daí não ser nada fora do comum a ação de Lutero. As suas proposições seriam discutidas e resolvidas por monges e eruditos, de acordo com o costume da época. Mas o ressentimento sobre os abusos ligados com a pregação das indulgências estava então tão difundido, que a ação de Lutero atraiu uma atenção inusitadamente ampla. Realmente ela provou ser a fagulha que ateou as chamas da poderosa conflagração que virtualmente devia propagar-se a toda a Europa.



Quando um mercador ofereceu à venda em Wittenberg as antíteses de Tetzel, foi vaiado pelos estudantes, que incendiaram na praça pública o seu estoque de 800 exemplares. Em vez de responder a Tetzel e de assim limitar a controvérsia ao foro acadêmico. Lutero levou-a a arena pública, publicando em vernáculo o seu Sermão sobre as indulgências e a Graça. Foi este um erro fatal, pois não se tratava de apelação para um tribunal competente onde o caso fosse decidido à base dos seus méritos teológicos, mas onde ganharia o veredicto o partido que excitava as paixões das massas e atiçava as chamas dos recém-acesos sentimentos de nacionalismo.



RECUSA RETRATAR-SE

Os Dominicanos da Saxônia enviaram a Roma acusações contra o monge agostiniano. Em junho de 1518, o procurador papal instaurou o processo contra Lutero por suspeita de propagar heresia. Em outubro Lutero compareceu, em Augsburgo, perante o legado papal, o sábio Cardeal Cajetano, mas recusou retratar-se. A entrega de Lutero, requisitada por Cajetano foi recusada por Frederico da Saxônia, príncipe territorial de Lutero. Durante a disputa de Leipzig em 1519, quando pensou em vir em auxílio do seu amigo Carlstadt contra Eck, Lutero negou o primado e a autoridade do Papa.



As alternadas disposições de relaxamento e de mortificação intensa que Lutero experimentara no mosteiro, antes de seu descobrimento da doutrina da salvação por meio da fé sozinha, têm o seu paralelo nas suas alternadas atitudes para com a Santa Sé. Assim, a 3 de março de 1519 Lutero escreve a Leão X: Perante Deus e todas as suas criaturas dou testemunho de que nem desejei e nem desejo tocar, ou por intriga solapar, a autoridade da Igreja Romana e a Vossa Santidade (De Wette, I, 234). Dois dias depois, escreve a Spalatin: Nunca foi minha intenção desertar da cátedra apostólica (De Wettw, I 236). Dez dias mais tarde escreve ao mesmo: Não atino saber se o Papa é o anti-Cristo ou o apóstolo de Cristo (De Wette, I, 239).



Estas são amostras simplesmente típicas das suas expressões contraditórias para com a Santa Sé durante esse período. Depois de ver o atoleiro de contradições em que as próprias palavras de Lutero o envolvem neste e noutros assuntos, o historiador Bayne observa: Provar a coerência de Lutero, justificar o seu procedimento em todos os pontos, como sem falha em veracidade como em coragem, sob estas circunstâncias, isto pode ser deixado a simplórios fabricantes de mitos (Martin Luther, I 457).



Desde 1520 uma mudança assinalada na maneira e na vida de Lutero é discernível. A sua antiga escrupulosidade transforma-se numa confiante segurança de si quando ele começa a deixar a discrição de lado e ataca doutrina sobre doutrina, com temerário pouco caso. De junho de 1520 em diante, Lutero chamou publicamente o Papa de anti-Cristo. No seu Memorial à Nobreza Germânica publicado em agosto de 1520, ele pede aos príncipes germânicos que convoquem um concílio e exige a abolição do celibato, das missas pelos defuntos, das peregrinações, dos dias de festa e de jejum, e dos tributos a Roma.

ROMA AGE


No seu opúsculo Sobre o Cativeiro Babilônico da Igreja, publicado em outubro, ele rejeita a Comunhão sob uma só espécie, o caráter sacrificial da Missa, transubstanciação, a confirmação, as sagradas ordens, a unção dos enfermos e o matrimônio como sacramentos. A 10 de dezembro de 1520, ele queimou publicamente a bula de Leão X Exsurge Domine, que condenava quarenta e um dos seus erros e o ameaçava de excomunhão. Em face desse público desafio, o pontífice não teve outra alternativa senão excomungar o frade rebelde e os seus adeptos. Fê-lo a 3 de janeiro de 1521.



Os sequazes de Lutero vieram das fileiras dos que estavam desgostosos com os abusos eclesiásticos da época, e que pensavam ver nele um verdadeiro reformador. Porém muitíssimo mais vieram das fileiras dos frades e das freiras anti celibatárias, dos cavaleiros empobrecidos, dos humanistas anticlericais e dos príncipes mundanos. Numerosos movimentos e muitos fanáticos manifestaram-se, todos apelando para a Bíblia como a sua autoridade. Os camponeses, compreendendo mal as falas de Lutero acerca da liberdade dos filhos de Deus, levantaram-se em rebelião. Centenas de mosteiros, conventos e castelos foram reduzidos a pó e cinzas.



Com selvagem crueldade Lutero voltou-se contras esses camponeses, cujas exigências eram uma repetição parcial das suas próprias palavras. Incitou os nobres a matarem esses filhos do diabo e a acuá-los como a cães. O seu conselho foi seguido ao pé da letra. Milhares daqueles pobres camponeses foram mortos com atroz crueldade. Erasmo orça o número dos mortos em 100.000 (Erasmus, Epist. 803).



Longe de lamentar uma tal orgia de imperdoável matança uma tal orgia de imperdoável matança, Lutero gabou-se dela dizendo: Eu, Martinho Lutero, matei todos os camponeses na rebelião, por haver dito que eles deviam ser mortos; todo o sangue deles está sobre a minha cabeça. Mas eu o lanço sobre o Senhor Deus, que assim me mandou falar (Werke, Edição Erlangen LIX, p. 284, Table Talk; veja também Grisar, vol. III, p. 213).

A CENSURA DE OSIANDER

A crueldade que Lutero incitou os príncipes amontoar sobre os camponeses arrancou do seu companheiro de reforma Osiander a seguinte censura: Ai! Pobres camponeses, que Lutero adula e afaga quando eles atacam somente os bispos e os padres; mas, quando, rindo da bula dele, os insurrectos ameaçam a ele e aos seus príncipes, então ele expede outra Bula decretando a matança deles quais outros tantos animais selvagens (Parsons, Studies in Church History, vol. III, p. 315).

Como resultado de tratar os camponeses da maneira brutal recomendada por Lutero, o insigne historiador protestante A .F. Pollard  afirma que, pelo fim do século dezoito, os camponeses germânicos continuavam sendo os mais desgraçados da Europa. A servidão, vigorou ali por mais tempo do que em qualquer outro país civilizado exceto a Rússia, e a massa do povo era efetivamente afastada da esfera da ação política. Os começos da democracia foram esmagados nas cidades (Cambridge Modern history, II, 191).

A 3 de junho de 1525, no meio de todo o desassossego, miséria e aflição consequentes à Guerra dos Camponeses, Lutero casou-se com uma freira cisterciense, Catarina de Bora, que deixara o seu convento como resultado dos ensinamentos dele. A esse tempo tinha ela vinte e sete anos e Lutero quarenta e três. Seu colega o monge Carlstadt, então com quarenta e um, renunciou aos seus votos para casar-se com uma menina de quinze, com o cordial endosso de Lutero. Muitos outros, monges e freiras, seguiram o exemplo do ex-frade agostiniano.

Lutero constantemente cortejou o favor dos príncipes exaltando-lhes a autoridade em assuntos espirituais e incentivando-os a invadir o domínio da Igreja. Foi o apoio dos nobres seculares que assegurou o êxito da revolta de Lutero. Este fato é francamente reconhecido pela Encyclopedia Britânica, que diz: Não  houvessem os príncipes germânicos achado do seu interesse reforçar os princípios dele, e ele nunca teria passado de guia de uma seita mística obscura. Ademais, ele não era estadista. Era atrevidamente impetuoso no temperamento, grosseiro e grandemente supersticioso de acordo com as normas modernas (Vol. 23, p. 11).

SANCIONA A BIGAMIA


Teve ele, porém, de pagar um alto preço por esse apoio, e, às vezes, um preço vergonhoso. Assim, para conseguir o apoio continuado, Landgrave de Hesse, Lutero lançou-se ao repúdio do ensinamento de Cristo concernente à unidade e indissolubilidade do matrimônio, e permitiu a Filipe tomar uma segunda mulher enquanto continuava a viver também com a primeira. Cristina já lhe dera sete filhos quando a Filipe lhe deu na cabeça querer casar-se com margarida von der Saal, uma criada de quarto de dezessete anos. No seu pedido a Lutero e aos seus colegas para tornar uma segunda mulher, mesmo indicando a sua intenção de continuar a viver também com a atual, Filipe acena ante os olhos deles com a promessa das terras do mosteiro se eles aquiescerem ao seu pedido. Diz ele: Se eles atenderem, pois, ao meu pedido... tudo o que for justo e razoável, até mesmo a propriedade dos mosteiros, e coisas assim, eu lhes concederei (Parsons, R., Studies in Church History, Pustet & Co. N.Y.., 1896, vol III, p. 322).

Quando pedido algo semelhante foi apresentado por Henrique VIII da Inglaterra ao Papa Clemente VII, este defendeu a lei de Cristo ainda que isto significasse a defecção, para com a antiga fé, do luxurioso monarca e de quase todos da Inglaterra. Mas Lutero, sem consideração nenhuma pela solene injunção de Cristo contra a bigamia, permite ao Landgrave tomar a criada de dezessete anos como segunda mulher, recomendando-lhe, contudo, manter isso em segredo.

As bodas foram realizadas, na presença de Bucer e de Melanchthon, pelo amigo de Lutero, Melander, que tinha três viúvas. Quando a notícia do casamento transpirou, seguiu-se uma sensação nacional de escândalo. Lutero se revelou como um mero oportunista, traindo a sagrada lei de Cristo por trinta moedas de prata na forma do apoio de um príncipe temporal. Melanchthon, diz a Cambridge Modern History, quase morreu de vergonha, mas Lutero desejou defender insolentemente a coisa com uma mentira (Vol. II, 241).

TODA ESSA CONFUSÃO ERA ...

À medida que Lutero foi ficando mais velho, a sua irascibilidade aumentou, e ele virtualmente brigou com cada um dos seus colegas, vomitando sobre eles uma onda de vitupérios. Observando o acirrado despotismo dos nossos governantes, as intérminas contendas entre os seus sequazes, as incuráveis férias íntimas da nova Igreja com o princípio da divisão a lhe morder como um câncer o próprio coração, ele se torce de angústia. O vício e a imoralidade campeiam, e não há corte de apelação final para pôr fim às rixas dos pregadores, cada um dos quais coloca a sua interpretação particular na Bíblia acima de qualquer corte.

Os terríveis resultados da sua obra estão despontando sobre ele. Os demônios, diz-nos ele, estão-nos assaltando tão ferozmente que lhe Não dão descanso sequer um só dia. De todos os assaltos,nenhum foi mais severo ou maior do que o acerca da minha pregação, acudindo-me à mente este pensamento: Toda essa confusão foi causada por você (Saemtliche Werke, LIX, 296; LX, 45, 46, 108, 109, 111; LXII, 494).

Aí estava a voz de uma consciência perturbada falando a ele. No seu último sermão em Wittenberg, ele denuncia a razão como o orgulho do diabo e como uma petulante prostituta.

Por ocasião de uma visita a Eisleben, sua cidade natal, ele foi cometido de uma doença fatal, ali morrendo a 18 de fevereiro de 1546. A sua obra de divisão da grande comunidade do Cristianismo em facções que se guerreiam havia muito fora realizada, e sua morte causou apenas uma pequena ruga no oceano de discórdia que então lavrava.

Na Dieta de Augsburgo, em 1555, fez-se um esforço para conseguir uma forma de paz baseada em compromisso. Foi adotado o princípio cujos régio jus religio, de acordo com o qual a religião do governante devia tornar-se a religião oficial do território. “Liberdade de consciência”, diz a Encyclopedia Britânica, foi assim estabelecida somente para os príncipes, e o poder destes tornou-se supremo em matérias tanto religiosas como seculares (Vol. 23, p. 15).

FEROZ  INTOLERÂNCIA


Lutero muitas vezes é figurado como um campeão da liberdade religiosa. Contudo, longe de oferecerem apoio a tal pretensão, os fatos da história mostram que o oposto é que é verdadeiro. Poucos chefes, se os houve, na história do pensamento religioso, foram tão intolerantes com as divergências como ele. O historiador protestante Hallam reflete o juízo de todos os entendidos imparciais quando escreve: Um dogmatismo ilimitado, repousando, praticamente, numa absoluta confiança na infalibilidade do seu juízo, permeia os seus escritos; nenhuma condescendência é mostrada, nenhuma pausa é concedida ao hesitante; tudo quanto se ergue no caminho das suas decisões, os Padres da Igreja, os homens da escola e os filósofos, os cânones e os concílios, tudo é varrido numa torrente de impetuosa declamação; e, como, segundo Lutero, tudo o que se contém na Escritura é fácil de entender, e só pode ser entendido no sentido dele, todo desvio da doutrina incorre o anátema da perdição. Que os zwinglianos, tanto como toda a Igreja de Roma e os Anabatistas, por causa dos seus dogmas foram excluídos da salvação, isto é mais do que insinuado em numerosas passagens dos escritos de Lutero (Hallam, Literature of Europe, vol. P. 372).

De maneira semelhante o historiador protestante Edward M Hulme, falando de Lutero e dos colegas deste, diz: Os reformadores vieram a considerar a intolerância uma lei de auto preservação. Lutero anatematizou todo aquele cuja crença divergisse da dele. "Aquele que não crê na minha doutrina”, disse ele uma vez, está seguro de ser condenado (Edward Maslin Hulme, The Protestant Revolution and the Catholic Reformation in Continental Europe, Century. N.Y., 1915, p. 363).

Pouco tempo antes da sua morte, Lutero escreveu dois panfletos tremendamente insultuosos. Um deles era  Contra o Papado, fundado pelo Diabo em Roma, e o outro era contra os judeus. O frontispício no primeiro panfleto era uma figura chocantemente vulgar de uma latrina com o seu conteúdo. A essa produção o historiador alemão Döllinger denominou de documento cuja origem dificilmente pode ser explicada a não ser supondo que Lutero haja escrito a maior parte dele sob a influência de bebida intoxicante (Döllinger, Luther, p. 48).

O seu ataque contra os judeus é eriçado de vis epítetos, tais como jovens diabos condenados ao infernoEle intimou os seus sequazes na Alemanha a incendiarem as escolas e sinagogas judaicas, e a jogar piche e enxofre nas chamas; a lhes destruir as casas; a lhes confiscar o dinheiro em espécie, de ouro e de prata; a lhes tomar os Livros sagrados, até mesmo a Bíblia inteira; a lhes proibir celebrarem quaisquer ofícios religiosos, sob pena de morte; e, se isso não adiantasse, a enxota-los para fora do país como cães raivosos (Luther’s Works, vol XX, pp. 2230-2632).

Neste período de amarga hostilidade e intolerância para com todos os que sustentasse um só ponto de vista teológico diferente do seu foi que Lutero persistiu até cair o pano final.

INTERPRETAÇÃO PRIVADA


Embora Lutero desejasse restringir a princípio da interpretação privada da Escritura ao seu uso próprio, e fazer a sua interpretação pessoal obrigar a todos, o seu exemplo provou-se mais contagioso do que o seu preceito. Os seus seguidores reclamaram o mesmo direito, e logo começaram a dar interpretações divergentes aos mais simples textos. Assim, em Ingolstadt, em 1577, Cristóvão Rasperger citava duzentas interpretações diferentes das quatro simples palavras da consagração, Isto é o meu Corpo, interpretações sustentadas pelos sequazes dos reformadores (The Faith of Millions, J. A . O’Brien, Our Sunday Visitor, Huntington, Ind. 1938, p. 227).

Lutero começou declarando que a Bíblia podia se interpretada por qualquer um até mesmo pela humilde criada  ou até por uma criança de nove anos. Mais tarde, no entanto, quando os Anabatistas, Zwinglianos e outros contrariaram as suas vistas, a Bíblia tornou-se para ele um livro de heresia, muito obscuro e difícil de  entender.

UM PRINCÍPIO DIVISÓRIO


Por isto, em 1525, ele deplorava tristemente a anarquia a que o seu próprio princípio da interpretação privada da Escritura dera nascimento: Há tantas seitas e crenças quantas cabeças. Um não terá nada a fazer com o Batismo; outro nega o Sacramento; um terceiro acredita que há outro mundo entre este e o último dia. Alguns ensinam que Cristo não é Deus; uns dizem isto, outros dizem aquilo. Não há rústico, por mais rude que seja, que, se sonhar ou fantasiar alguma coisa, isto não deva ser o sussurro do Espírito Santo, e ele próprio um profeta (Grisar, Luther, IV, 386-407, B. Herder, St. Louis, 1917).

As centenas de seitas litigantes, todas proclamando-se baseadas na Bíblia, oferecem terrível evidência da divisão e dissensão que o princípio da interpretação privada trouxe ao mundo. Só para se ter uma ideia, o Censo Religioso dos Estados Unidos para 1936, registra nada menos do que vinte divisões dentro de uma única denominação, a luterana. Esse princípio da interpretação particular, que implantou tal divisão no mundo religioso do seu tempo, foi que levou Lutero a confessar tristemente haver quase tantas seitas quanto cabeças.

O novo princípio de Lutero, da salvação pela fé sozinha, ofereceu tão destrutivo no campo da moral quanto o seu novo princípio do juízo privado foi divisório em matéria de credo. Por isto o Professor E. M. Hulme diz: Em oposição à salvação católica pelas  boas obras, a revolução preconizara a salvação pela fé sozinha. Alguns dos luteranos extremados chegaram a asseverar que as boas obras era prejudiciais à salvação. Assim fazendo, eles esvaziavam a fé da sua essência e deixavam-na como pouco mais do que uma mera aceitação dos dogmas da sua igreja. Jacob Andreae, cônego e chanceler de Tübingen, disse que, com a pregação da doutrina da justificação somente pela fé, as antigas virtudes desapareceram e uma multidão de novos vícios apareceu no mundo. Bucer, que ajudou a estabelecer o protestantismo em Estrasburgo, disse que a corrupção dá cada dia novos largos passos na Igreja Evangélica. Melanchthon asseverou que todas as águas do Elba não seriam suficientes para eu chorar sobre os males da reforma. E finalmente o próprio Lutero disse que não há um só dos nossos evangélicos que não seja sete vezes pior do que antes de pertencer a nós (The Protestant Revolution and the Catholic Reformation in Continental Europe, p. 366).

Similar é o testemunho do eminente historiador Hallam, filho protestante de um clérigo protestanteSustentando que a salvação depende da fé como condição única, ele não somente negou a importância, em sentido religioso, de uma vida virtuosa, mas afirmou que todo aquele que sentisse dentro de si mesmo plena segurança de que seus pecados lhe eram perdoados tornava-se absolutamente incapaz de pecar, ou pelo menos de perder o favor de Deus enquanto, mas só enquanto a segurança continuasse (Litterature of Europe, Part. I, p. 303).

Realmente, no seu Cativeiro Babilônico, Lutero escreveu: Assim vedes como é rico o cristão batizado, já que, mesmo que o desejasse, não pode perder a salvação, peque quantas vezes pecar,  a menos que recuse crer. Os pecados, por mais numerosos e graves que sejam, não podem condena-lo se apenas ele se agarrar a fé (Para o caso de alguém duvidar de que um “líder” religioso fizesse semelhante afirmação, citamos as exatas palavras de Lutero em Latim: Ita vides quam dives sit homo christianus et baptizatus, qui etiam volens non potest perdere salutem suam quantiscumque peccatis, nisi nolit credere. Nulla enim peccata eum possunt damnare nisi sola incredulitas).

 

JUÍZO SOBRE LUTERO


Apresentemos os aspectos gerais da vida, ensinamentos e caráter de Lutero, não com o pensamento de ganhar uma vitória polêmica, mas simplesmente para que o leitor possa ver o Lutero real como descrito por eminentes historiadores protestantes, e não a criatura imaginada por alguns do seus ardorosos seguidores, na sua piedosa imaginação. Não desejamos ferir os sentimentos nem mesmo destes últimos, mas cremos que os interesses da unidade cristã só podem ser servidos com a apresentação da verdade histórica. Retratar Lutero como um brilhante santo, e dar aparência honesta as fraquezas e os defeitos, é fazer zombaria da história e retardar a causa da reunião. Foi por isto que os Bispos da Igreja Evangélica Unida da Alemanha, depois de verem o filme americano Martinho Lutero, imediatamente disseram que certas cenas deviam ser mudadas.

Por outro lado, igualmente errado é depreciar-lhe as boas qualidades, a sua seriedade moral ao menos no começo, a sua piedade profunda, a sua coragem e a sua indefectível fé em Deus. Só Deus pode julgar da sua boa fé em romper com a Igreja da qual era um sacerdote ordenado, e em calcar os pés os seus votos monásticos; melhor fariam os humanos suspendendo o seu juízo. Além disto, só Deus sabe a extensão da influência que tiveram sobre o seu pensamento e sobre a sua conduta as cicatrizes psíquicas e desordens emocionais oriundas das suas periódicas disposições de melancolia e de desespero que o levaram quase às portas da loucura. Só Deus, que conhece os segredos de cada coração, está no caso de fazer um juízo perfeito, e nós podemos deixar o frade de Wittenberg entregue à sua infinita misericórdia e ilimitado amor.

Em vez de simplesmente condenarmos Lutero como um grosseiro, vulgar e luxurioso monge apóstata, movido por um desejo de escapar à disciplina da vida monástica, melhor é, para nós, lembrarmo-nos de que, como Frei Martinho Lutero, ele foi elevado ao sacerdócio eterno de Jesus Cristo e deveria ter um lugar para sempre nas nossas orações. É confortador recordar que ele foi confessar-se ao seu amigo Bugenhagen já pelo fim da sua vida. Há muito tempo que eu deveria ter sido estrangulado pelo demônio, confessa elese não tivesse sido sustentado pela confissão particular. É bom lembrar que Lutero usou hábito de monge, por um total de dezenove anos da sua vida, continuando a fazê-lo por três anos após a sua excomunhão, e que ele nunca se considerou realmente fora do rebanho da Igreja Católica histórica.

REUNIÃO – O NOSSO ALVO

O problema que hoje em dia interessa a todos nós é o do restabelecimento da unidade cristã. Atacando com razão os abusos da sua época, muito provável é que Lutero não tivesse o pensamento de cindir a unidade da Igreja, a despeito das novas idéias que, mesmo então, se agitavam no seu cérebro febril. Esses abusos há muito que foram corrigidos. O reformador Concílio de Trento extirpou-o pela raiz. Se Lutero voltasse hoje, disse o historiador evangélico Karl August Meissinger, para seu espanto acharia a Igreja Católica que ele nunca teria atacado no seu presente aspecto... Acima de tudo ele veria... que não persiste em existência nenhum dos abusos que foram ocasião atual do seu rompimento com Roma (Karl Adam, Onde day Holy, Sheed and Ward, N.Y., 1951, p.57. Este esplêndido livrinho do erudito professor da Universidade de Tübingen, escrito com cristã simpatia e amor, é uma notável contribuição para a causa da reunião, e pode ser recomendado de coração tanto a protestantes como a católicos. É uma pequena obra prima que influenciou consideravelmente o nosso próprio pensamento, e esperamos ter refletido algo do seu espírito de simpatia e de amor).

Em conexão com isto, bom é lembrar que os abusos nunca tocaram nenhuma das doutrinas da fé. A Igreja fundada por Cristo jamais cessou de ensinar o corpo de verdades divinamente reveladas e o código de moral cristã, mesmo se alguns dos seus membros, e mesmo alguns dos seus oficiais, eram falhos na sua moral. Cristo nunca prometeu a nenhum dos seus Apóstolos ou discípulos, a impecabilidade, pois isso os privaria do seu livre arbítrio. O fato de um dos seus próprios doze escolhidos havê-lo traído deveria constituir uma constante advertência de deverem os seus seguidores estar sempre preparados para esperar a fragilidade entre os fracos mortais que Cristo escolheu para serem ministros.

Se Lutero pudesse ter guardado claramente de memória esta crucial e importantíssima distinção entre a Igreja e os seus membros indignos, e ter lutado contra os abusos destes últimos com todo o zelo da sua natureza impetuosa e apaixonada, permanecendo ele um sacerdote humilde, puro e dedicado, hoje em dia ele seria honrado como um grande herói e santo das Igreja. Mas, infortunadamente, ele permitiu que os espíritos belicosos o levassem a atacar não somente os abusos, mas também a autoridade da Santa Sé – coluna vertebral do organismo da Igreja. Assim fazendo, ele cometeu aquilo a que Santo Agostinho chama o maior pecado do cristão pode perpetrar: levantar altar contra altar, e rasgar em pedaços o Corpo único de Cristo. Nisto reside a tragédia de Frei Martinho Lutero e da reforma.

Uma vez que esta verdade central seja por todos percebida e admitida, as perspectivas para a reunião tornam-se imensuravelmente mais brilhantes. Lutero torna-se então uma ponte ligando as nossas divergências, em vez de um abismo a nos dividir. Os nossos irmãos luteranos conservaram muitas das verdades centrais da Fé histórica, como é certo, o fizeram virtualmente todos os credos protestantes. O passo seguinte é recuperar todas aquelas que foram inconsideravelmente perdidas no grande cataclismo do século dezesseis, e assim curar as feridas no Corpo Místico de Cristo.

A PORTA ABERTA


A oração de Cristo pela unidade: Que eles sejam um como Tu, Pai, em mim e eu em ti!, deve achar igualmente um lugar nas nossas preces. Melhor do que discussão é a oração humilde. O caminho pode parecer longo, mas a oração pode encurtá-lo e apressar-nos nele. A oração gera amor, e onde está o amor aí está também Deus. Se amarmos todos os nossos irmãos separados com o amor de Cristo, eles não tardarão a descobrir que nós não procuramos vitória polêmica, mas simplesmente partilhar com eles o Cristo total, o todo do seu Corpo Místico, a Igreja.

Como seria admirável se a oração expressa em pró da reunião por Karl Adam no seu livrinho Uma santa pudesse tornar-se o grito de toda a cristandade:

Levantai-vos, ó Senhor, iluminai as nossas mentes e inflamai os nossos corações, para que todos os obstáculos deste mundo possam cair, para que possamos abrir os nossos corações uma aos outros e ir ao encontro uns dos outros. Há um só lugar onde nos possamos uns aos outros; o Coração de Jesus. O caminho para a unidade não é de Pedro para Cristo, mas de Cristo para Pedro, não de fora para dentro, mas de dentro para fora.
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(P. 105)

O testemunho de luteranos que transpuseram o abismo que nos separa mostra que o seu pequeno sacrifício trouxe compensação em paz e amor e felicidade. Típico do testemunho de milhares que voltaram ao rebanho é o de Gertrud von Zezschwitz, escritora cuja sinceridade profunda é apreciada por todos os luteranos. No seu leito de morte, em janeiro de 1946, ela escreveu:

A Igreja Católica vale qualquer sacrifício. Em vinte e sete anos ela me tem indenizado de todos e cada um deles, e até o meu último alento continuará a fortalecer-me e consolar-me. Só quem pertence à Igreja Católica e progrediu direito nela é que pode avaliá-la com acerto... Com toda a sua humanidade, ela não desmente a sua origem divina, e assim tem podido superar os seus períodos de declínio e prosseguir deles renovada. 

A este testemunho Fräulein Zezschwitz juntou a seguinte prece luterana de graças:

Assim eu fico sempre contigo, meu Deus. Porque tu me seguras com a tua mão direita. Guias-me com o teu conselho... Se eu não tiver senão a ti, nada procurarei no céu ou na terra.

Comentando esse belo misto de devoção e oração Karl Adam que a piedade bíblica luterana e a fé na Igreja Católica estão muito intimamente unidas nesse testamento de morte. Na verdade, elas são um só. Aqui vemos uma nova modalidade em que a unidade se exprime por si mesma (P. 128).

Entre os muitos bispos que na Alemanha trabalham e rezam pela reunião está o Bispo Buchberger, de Regensberg, o qual diz com confiança: Um dia seremos ouvidos, um dia haverá novamente um só rebanho e um só pastor.

Este espírito de esperança, de fé e de otimismo deveria ser igualmente o nosso.

UM SÓ SENHOR, UMA SÓ FÉ

O mais antigo documento litúrgico cristão que chegou até nós é o Didaché, no qual o fiel, pensando no Pão celestial preparado sobre o altar, profere a seguinte oração: Assim como este pão foi espalhado sobre as montanhas e agora foi reunido, assim também possa a tua Igreja ser reunida dos confins da terra para dentro do teu reino. Pois tua é a glória e teu é o poder, através de Jesus Cristo, por todo o sempre.

Esta oração dos primeiros cristãos hoje em dia. Já que o Cristo prometeu que tudo quanto pedíssemos ao Pai em nome do Salvador nos seria concedido, não podemos duvidar de que Deus escutará este grito saído dos lábios de todos os cristãos através de uma cristandade tragicamente dividida.

A todos os cristãos a comovente exortação de S. Paulo chega hoje com peculiar significado  nova urgência. Diz o Apóstolo:  rogo-vos, pois, eu prisioneiro no Senhor, que andeis de modo digno de vocação a que fostes chamados, com toda humildade e mansidão, com paciência, suportando-vos uma aos outros em caridade. Solícitos em guardar a unidade do Espírito no vínculo da paz. Um só corpo e um só espírito, tal como fostes chamados numa só esperança da vossa vocação. Um só senhor, uma só fé, um só batismo. Um só Deus e Pai de todos, que está acima de todos, e age em todas as coisas e reside em todos nós (Ef 4,1-7).

Queira Deus possamos todos obedecer à injunção de S. Paulo, de modo que em breve haja um só rebanho um só pastor, um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos nós.
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Autor: Infelizmente donde extraí este belíssimo trabalho não consta o nome de seu autor.
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