sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

TEOLOGIA DOGMÁTICA


APRESENTAÇÃO

A ciência da doutrina cristã:


Trata sistematicamente dos ensinamentos da Igreja. As estuda em conjunto, cada artigo da fé por si mesmo e em relação aos outros dogmas. Demonstra a veracidade dos dogmas fundamentando-se nas Sagradas Escrituras e na tradição e ajuda a entendê-los por meio de comparações. Demonstra que estão em harmonia com a razão e responde as objeções das ciências. Deduz e ensina as conseqüências teológicas das doutrinas.
Dogma de acordo com o dicionário significa: 

1. Proposição que se assenta por firme e certa e como principio inegável de uma ciência.
2. Doutrina de Deus, revelada por Jesus Cristo aos homens e testificada pela Igreja. 

3. Fundamento ou pontos capitais de todo sistema, ciência, doutrina ou religião.

Os dogmas são aquelas doutrinas que a Igreja propõe para ser acreditada como formalmente reveladas por Deus. Os dogmas pertencem ao depósito da fé de uma maneira irreversível. 

Uma doutrina se reconhece como dogma por um dos seguintes raciocínios:

1- foi solenemente definida como tal pelo Magistério da igreja. Isto pode ocorrer em um Concílio Ecumênico, ou por um pronunciamento ex-cátedra do Papa. (Exemplo: Maria Imaculada Conceição)

2- foi ensinado como tal pela tradição invariável da Igreja e não requer ser proclamada dogmaticamente. (Exemplo: A condenação ao aborto)

Negar algum dogma significa negar a mesma fé, pois se supõe negar a autoridade de Deus, que o revelou. 

Doutrina é toda verdade ensinada pela Igreja como necessária de acreditar. Como um dos seguintes:

1-Foi formalmente revelada (Ex.: a Presença Real Eucarística) 

2-É uma conclusão teológica (Ex.: a canonização de um santo) 

3-É parte da lei natural (Ex.: a pecaminosidade dos anticoncepcionais).

Em cada caso, o que constitui a doutrina é a autoridade da Igreja que ensina o deve ser acreditado. Este ensino pode dar-se:

1. VERDADE FUNDAMENTAL E COMPROVÁVEL

A existência de Deus é a verdade fundamental da religião, o ponto de partida. Não teria sequer sentido falar da fé, da religião ou do dogma sem antes deixar assentada esta verdade.

A razão humana, com sua força, sem ajuda do sobrenatural, pode chegar a demonstrar a existência de Deus, e a deduzir muitas de suas perfeições.

Certamente não podemos compreender a Deus, pois sendo infinito, não pode abrangê-lo o limitado entendimento humano; mas podemos conhecê-lo.

O anterior é, além disso, verdade de fé. O Concílio Vaticano I afirma que "A mesma Santa Mãe Igreja sustenta e afirma que Deus, princípio e fim de todas as coisas, pode ser conhecido com certeza pela luz natural da razão humana partindo das coisas criadas" 

2. 
3.1.1 - Necessidade de querer conhecer Deus 

O querer conhecer Deus é necessário para chegar a conhecê-lo. Não basta tão somente aplicar a inteligência, mas sim se requer, além disso, de retas disposições morais (bom comportamento frente a Deus), pois do contrário é impossível conhecer Deus.

Embora a existência de Deus é uma verdade que pode ser conhecida por todos os homens, entretanto, em seu conhecimento "o entendimento humano encontra dificuldades, já por causa dos sentidos ou imaginação, já pelas concupiscências derivadas do pecado original. E acontece que, nestas coisas, os homens facilmente se persuadem do que é falso ou duvidoso, o que não querem que seja verdadeiro" (Pio XII, Enc. Humani Generis, 12-E VIII-1950, Dz. 2305).

1.1.2 Conhecimento natural de Deus a partir das criaturas 

Por ser Deus infinito em toda perfeição, não o podemos conhecer diretamente, mas sim deduzimos sua existência por meio do mundo e das coisas criadas, que nos levam a conhecimento do Criador.

Assim diz São Paulo: "Em efeito, as perfeições invisíveis de Deus,.... ou seja: seu eterno poder e sua divindade, feito-se visíveis à inteligência, depois da criação do mundo, através das coisas criadas" (ROM. 1, 20).

A fé confirma a existência de Deus, e além nos propõe isso como o autor da ordem sobrenatural. 

4. 
1.2 - DEMONSTRAÇÃO RACIONAL DA EXISTÊNCIA DE DEUS

Antonio Rosmini Serbati (1797-1855) -
Ontologismo
A existência de Deus não é de evidência imediata para nós, mas sim é fruto de um processo discursivo, de um raciocínio.

Em 1877 foi condenado o engano do Antonio Rosmini - chamado ontologismo - que afirmava que o conhecimento de Deus era o conhecimento mais imediato ao entendimento humano (cfr. Dz. 1891 ss.) 

A maioria das provas tendentes a demonstrar a existência de Deus utilizam em seu processo demonstrativo o princípio de casualidade. 

São Tomás de Aquino demonstra a existência de Deus por cinco caminhos ou vias, que são:







5. 1) Pela existência do movimento. 
6. 2) Pela casualidade eficiente. 
7. 3) Pelos seres contingentes. 
8. 4) Pelos diferentes graus de perfeição, e 
9. 5) Pela ordem do Universo. 

A seguir assinalamos só algumas destas provas e outras que, em última análise, reduzem-se a uma das vias de São Tomás. 

1.2.1 Pela existência do mundo

Enunciado: O mundo exige uma causa de si, a que chamamos Deus.

Provamos pelo princípio de casualidade. E se enuncia assim: "Não há efeito sem causa "; ou: "Todo ser que começa a existir tem uma causa em si".

Este princípio não se pode provar porque é evidente, e se verifica continuamente na vida cotidiana. Bastará um exemplo: não podemos admitir que um edifício ou um vestido feito por si mesmo; riríamos de quem nos dissesse que apareceram "de boas a primeiras", sem intervenção de um arquiteto, ou de um alfaiate.

Pois bem, o mundo é um efeito incomparavelmente mais complicado que um vestido ou um edifício. Logo, não podemos admitir que tenha aparecido sem que um ser lhe desse existência. Este ser se chama Deus.

1.2.2 - Pelos seres contingentes

Enunciado: Existem seres contingentes, que exigem a existência de um ser necessário, ao que chamamos Deus.

Primeiro explicaremos o que é um ser contingente e um ser necessário. Logo veremos que os seres que há no mundo são contingentes. E finalmente por meio de três hipóteses comprovaremos que os seres contingentes comprovam a existência do ser necessário. 

1.º Ser contingente é o que é indiferente de por si a existir, ou não. Por exemplo, uma rosa que hoje é, e amanhã desaparece, ou que pôde não ter sido, é um ser contingente.

2.º  Ser necessário é o que não pode não existir, porque leva em si a razão de sua existência. Ser necessário não há a não ser um, que é Deus.

Os seres que há no mundo são contingentes. A experiência nos ensina que aparecem, duram um pouco e logo desaparecem.

Os seres contingentes aparecem de três maneiras:

a) ou de outro ser igual a eles, por exemplo, uma árvore dá nascimento a outra árvore, um animal a outro animal; 

b) ou da reunião dos elementos que os compõem; a água se produz pela combinação do hidrogênio com o oxigênio; a pedra aparece por agregação das partículas que a integram etc.; ou 

c) por criação, como nossa alma. 

3.º Para explicar a existência ou aparição dos seres contingentes podem fazer-se três hipótese: 

a) ou procedem de um nada; 

b) ou procedem uns de outros, em série infinita; 

c) ou procedem de um primeiro ser necessário que lhes deu a existência.

Examinemos estas três hipóteses.

a) A primeira hipótese: os seres procedem de um nada, é absurda, porque é impossível que um nada produza o ser. Assim, é impossível tirar do bolso um lenço que não tenho. Esta verdade, elevada à categoria de postulado científico a aceitam todos, inclusive os cientistas ateus que no passado pretenderam utilizá-lo como argumento para dar uma explicação da realidade. Veja-se o respeito as eloqüentes palavras do biólogo Virchow, citadas nos exercícios deste capítulo. 

SÉRIES INFINITAS

b) A segunda hipótese: os seres procedem uns de outros em série infinitos, tampouco pode admitir-se, porque a série infinita não explica nada. 

Em efeito, a série infinita ou tem a sua cabeça um primeiro ser, e já não é infinita; ou não tem a sua cabeça um primeiro ser, e então de onde procedem outros seres da série?

Assim por exemplo: uma cadeia de elos infinitos é um impossível; porque se tiver um primeiro elo, já não é infinita e se não ter um primeiro elo, onde se penduram outros? 

Outro exemplo: às vezes perguntam alguns: o que nasceu primeiro, o ovo , ou a galinha. Pôde ser qualquer das duas coisas. O que importa é admitir existência do primeiro ovo ou da primeira galinha, porque se não, não haveria hoje nem ovos nem galinhas. Repugna absolutamente à nossa mente uma sucessão infinita de ovos e galinhas, sem que tivesse existido um primeiro ovo ou uma primeira galinha que dessem nascimento a outros.

c) Logo fica por aceitar a terceira hipótese: isto é, que os seres provêm de um ser necessário que lhes deu a existência. 

Porque se este primeiro ser fora contingente, teria recebido a existência de outro, e este de outro; e assim voltaríamos para a série infinita.

4.º Conclusão. A série dos seres contingentes não se explica racionalmente a não ser mediante a existência de um ser necessário, que não recebeu o ser, porque o tinha de si mesmo; e que o comunicou a outros. este ser o chamamos Deus.

Este argumento da necessidade de um ser necessário é o mas claro e convincente para provar a existência de Deus. Sua força só pode ser desconhecida por quem nunca meditou nele, ou por quem se deixa arrastar por paixões e prejuízos que cegam a inteligência.

1.2.3 - Pela ordem do universo 

Enunciado: A ordem admirável que há no mundo exige a existência de uma inteligência ordenadora, a qual chama Deus.

Provaremos que há no mundo uma ordem admirável; e logo que esta ordem exige uma inteligência ordenadora.

5.º Há no mundo uma ordem em todos os seres:

a) Nos imensamente grandes. Milhões de astros de massa gigantesca atravessam o espaço a velocidades fantásticas; suas órbitas se entrecruzam em multidão de pontos; mas seus movimentos estão regidos por uma ordem e disposição admiráveis.

b) Nos mais pequenos. Assim, a planta mais humilde tem órgãos complicados e diferentes para cada função: nutrição,. respiração, circulação, reprodução, etc. Todos eles tendem a um fim preciso e determinado: a conservação do indivíduo e da espécie.

Werhnervon Braun, o mais importante físico do espaço, afirmava que "os materialistas do século XIX e seus herdeiros, os marxistas do século XX, dizem-nos que o crescente conhecimento científico da criação permite rebaixar a fé em um Criador. Mas, toda nova resposta suscitou novas perguntas, quanto mais compreendemos a complexidade da estrutura atômica, a natureza da vida, ou o caminho das galáxias, quanto mais encontramos novas razões para nos assombrar entre os esplendores da criação divina" (cit. em LOBO, G., Ideologia e fé cristã, P. 163).


2.º Esta ordem pressupõe uma inteligência ordenadora. Em efeito: 

a) Só uma inteligência pode dispor convenientemente os meios apropriados para a obtenção de um fim. No qual, precisamente consiste a ordem.

b) É um absurdo atribuir ao azar e à casualidade a ordem maravilhosa do mundo, porque assim como o que caracteriza à inteligência é a ordem, assim o que caracteriza o azar é a desordem.

Obrar ao azar é tanto como obrar cegamente, sem o conhecimento dos meios, ou sem a acertada disposição deles para alcançar o fim que alguém se propõe. 

Pretender que a ordem prodigiosa do mundo é a obra cega e caprichosa do azar, é um absurdo.

Seria ridículo pretender que ao atirar ao azar as doze letras da palavra inteligência, caísse todas em linha reta e na ordem devida para a formação da palavra. Maior absurdo, pretender que isto acontecesse cada vez que se atirassem. Mas o absurdo chegaria a seu cúmulo se pretendesse explicar dessa maneira a ordem dos milhares de letras que compõem este livro, sem que tivesse intervindo no mínimo uma mão e uma inteligência ordenadora.

Pois bem, muito mais absurdo é admitir que o mundo se fez ao acaso, porque a ordem que há nele é imensamente menos complicado que o de um livro; e uma ordem que em milhões de séculos se manteve

Conclusão: A ordem admirável que há no mundo, prova a existência de uma inteligência ordenadora, a quem chamamos Deus.

1.2.4 - Pela lei moral



Anunciado: A lei moral exige um legislador superior ao homem. Este legislador é Deus.

1.º chama-se lei moral ao conjunto de preceitos que o homem descobre em sua consciência, que lhe fazem distinguir o bem do mal, e lhe impulsionam a obrar o bem e a evitar o mal.

A lei moral tem três condições: a) obriga a todos os homens, b) é superior ao homem e c) obriga à consciência.

a) A lei moral obriga a todos os homens sem exceção alguma; prescreve-lhes, por exemplo, o respeito à vida e à propriedade alheia; e lhes proíbe o assassinato e o roubo.

b) É superior ao homem, quem não pode nem desconhecê-la, nem trocaria. Assim ninguém poderá fazer que o assassinato seja bom.

c) Obriga a consciência. Quando a observamos sentimos satisfação; quando a quebrantamos, até, que seja ocultamente, remorso.

2.º - A lei moral prova a existência de Deus, porque como não pode haver lei sem um legislador que a dê, é necessário que a lei moral tenha sido imposta por um legislador que tenha essas três mesmas condições, ou seja: que seja superior aos homens, obrigue-os a todos, e possa ler em sua consciência. Este legislador não pode ser ninguém, a não ser Deus.

1. - POSSIBILIDADE DE NEGAR A DEUS

1.3.1 Os ateus. Suas classes

Chamam-se ateus os que ignoram ou negam a existência de Deus.

Ateu vem da palavra grega: a, sem; e Teos, Deus. 

É importante precaver-se que na raiz de muitas atitudes atuais que achamos por toda parte - teatro, cinema, novelas, artigos de jornais, canções, ensaios, ensino universitário, etc.- encontramo-nos com abundantes pontos de pensamento que foram elaborados por ateus do século XIX, tais como Nietzsche, Feuerbach, Marx, Freud, etc. Herdeiros do racionalismo de Descartes e do idealismo de Hegel, o afã por submeter todas as coisas a sua razão incapacitou de aceitar a realidade de Deus e puseram o homem como soberano do mundo e da história.

Dividem-se em negativos, positivos e práticos. 

a) Negativos são os que não tiveram a idéia de DAVOS; b) Positivos os que tendo a idéia de Deus, negam sua existência; c) práticos, os que admitindo a existência de Deus, negam-na com suas obras, porque vivem como se Deus não existisse.

Podem existir três classes de ateus?

a.1 - Pode haver ateus negativos, isto é, homens que ignoram a existência de Deus; mas não por muito tempo, porque o universo e a consciência despertam logo na mente a idéia de um Ser Supremo.

Quando já o homem está em posse de suas faculdades, e reflete sobre si mesmo e sobre o que lhe rodeia, o espetáculo grandioso do universo acorda nele a idéia de um Criador; e a voz de sua consciência lhe sugere a idéia de um ser que manda nela e que pode premiá-lo ou castigá-lo.

b) Em relação aos ateus positivos, podemos fazer uma sub distinção;

b.1 Pode haver ateus positivos por convicção sectária, que neguem a Deus, ao menos temporalmente, como fruto de uma educação encaminhada a fomentar a crença de que Deus não existe.

Isto passa quando se acostuma a um jovem, em nome de uma falsa ciência, que Deus é uma mentira; e trata de convencer com toda classe de argumentos falsos, que ele não pode refutar pela mesma ignorância em que está. 

"Nunca esquecerei a impressão que produzida por um soldado russo em 1945. Acabava apenas de terminar a guerra. À porta do seminário de Cracóvia chamou um militar. Quando perguntei o que queria respondeu que desejava entrar no seminário. Mantivemos uma larga conversação. Embora não chegou nunca a entrar no seminário (tinha, pelo resto, idéias bastante confusas em relação à realidade do seminário), pessoalmente tirei de nosso encontro uma grande verdade: como Deus obtém de forma maravilhosa penetrar na mente humana, até nas condições extremamente desfavoráveis de sua negação sistemática. Durante sua vida adulta meu interlocutor não tinha entrado quase nunca numa igreja. Na escola, e logo no trabalho, tinha ouvido afirmar continuamente: Não existe Deus! E apesar de tudo repetia: Mas eu sempre soube que Deus existe!... e agora queria aprender algo sobre Ele. (K. Wojtyla, Sinal de contradição, P. 2 l).

b.2 - Mas não pode haver ateus por convicção científica. Em outras palavras não se pode comprovar cientificamente que Deus não exista. 

Para isso seria necessário jogar por terra argumentos indestrutíveis; e admitir como certas, coisas tão absurdas como estas: a série infinita dos seres, a vida como broto natural da matéria (geração espontânea), e a ordem maravilhosa do universo como efeito do acaso.

Seria também preciso destruir a lei moral, tão intimamente gravada em nossa consciência; e aceitar que pode haver efeito sem causa. Tudo isto repugna a nossa mente.

c) Os ateus práticos são muitos, desgraçadamente, até entre os católicos. São muitos os que vivem tão esquecidos de Deus, que obram a cada passo como se Deus não existisse.

É este um dos maiores males de nossa sociedade, e a causa de que ela se mostre tão indiferente e pagã.

O Documento de Povoa (1979), chama a atenção sobre o ateísmo prático do liberalismo capitalista e o sistemático do marxismo (cfr. nn. 535-561). Igualmente adverte os perigos do "secularismo ", onde "Deus resultaria supérfluo e até um obstáculo" (N. 43 5) daí a necessidade de conhecer suas causas e motivos (N. 1113). Deve se ter em conta também que não "poucas vezes os não crentes se distinguem pelo exercício de valores humanos que estão na linha do Evangelho", mas "a época não é estranha, entretanto, a formas de ateísmo militante e a humanismos que obstruem um desenvolvimento integral da pessoa" (N. 1113).

1.4 - NATUREZA DA RELIGIÃO

1.4.1 - Sentido e origem da palavra religião

A palavra religião engloba dois sentidos principais:

a) Como uma ciência que aperfeiçoa nosso entendimento; e assim dizemos que a Religião é a mais necessária das ciências. Recebe também o nome de Teologia (do Teos, Deus; logotipos, tratado).

b) Como uma virtude que aperfeiçoa nossa vontade, e neste sentido dizemos que uma pessoa é muito religiosa. SÃO TOMÁS define como a virtude a inclinação de render a Deus o respeito, a honra e o culto devidos (cft. S. Th. II-II, Q. 81, A. 5).

Aqui trataremos tão somente da religião como ciência; quanto a virtude, se estuda na Moral. 

1

Convém além de advertir que do conhecimento da Religião nasce a virtude da religião, porque não podemos amar, honrar e servir a Deus, sem antes conhecê-lo.

A palavra Religião vem do verbo latino "religare", que significa ligar, atar; pois a religião é o laço que une ao homem com Deus mediante seu amor serviço.

2. 

1.4.2 - Definição de Religião

A Religião é a ciência que nos ensina o conhecimento de Deus, dos deveres que nos impôs, e os meios que nos levam a Ele.

Diz-se que é a ciência do conhecimento de Deus, porque o primeiro que ensina são as verdades sobre Deus mesmo. Ensina também certo número de verdades que indiretamente se referem a Deus, e que tomam o nome de verdades religiosas; por exemplo, a existência da alma humana, de outra vida depois da morte, etc.

2o. - A Religião é a ciência dos deveres que Deus nos impôs, porque sendo Deus o Ser Supremo, e também nosso Criador e último fim, nos impôs certos deveres que temos obrigação de cumprir e que a Religião nos ensina;

Destes deveres uns olham diretamente a Deus, outros ao próximo, e outros a nós mesmos. Por exemplo: 

a) - Para com Deus, temos o dever de adorá-lo e servi-lo.

b) - Para com o próximo, o de respeitar sua vida e seus bens.

c) - Para conosco, o de procurar nossa salvação.

3.º - Adiciona-se que a Religião é a ciência da qual temos os caminhos que levam a Deus, porque Deus mesmo se dignou a nos manifestar certos meios muito a propósito para nos conduzir aos meios que a Religião estuda; por exemplo, a oração e os sacramentos. 
Deus em sua bondade dispôs que estes meios, ao mesmo tempo em que honram a Deus santifiquem nossa alma. Por isso recebem o nome de meios de santificação.

1. - Elementos que encerra

Do anterior se desprendem os três elementos que integram à Religião assim que ciência: o Dogma, a Moral e o Culto.

O Dogma ou Teologia dogmática compreende as verdades que devemos acreditar. A Teologia Moral, ou simplesmente Moral, ensina as obras que devemos praticar. E o Culto, os meios de santificação com os quais honramos a Deus e procuramos nossa salvação. Estes meios se estudam na ciência chamada Teologia Sacramentaria.

Os elementos da religião estão compendiados principalmente em: O Dogma no Credo, a Moral nos mandamentos, e o Culto na oração e os sacramentos. Pertencem também ao Culto as diversas cerimônias da Igreja, que levam o nome de Liturgia.

O Dogma é o elemento que constitui o ponto de partida da Religião. Em efeito, sem conhecer Deus, à religião revelada pelo mesmo, e à Igreja fundada, mal podemos obedecer seus mandamentos, nem aproveitar os meios de santificação que nos brinda.

1.4.4 - O fim da Religião

POSSE DE DEUS NOS CÉUS - SANTA
TEREZA DOS ANDES
Na Religião pode distinguir um duplo fim: 

a) Seu fim próximo, que ir é o conhecimento, amor e serviço de Deus nesta vida.
b) E seu fim remoto, que é o nos procurar a posse de Deus no céu.

1.5 - RELIGIÃO NATURAL E RELIGIÃO REVELADA

1.5.1 - Noção

Conhecemos deus de dois modos: pela razão e pela revelação.

a) A razão é a luz natural que Deus deu a nosso entendimento para conhecer as coisas. 
Com a só força da razão natural, ou seja, dizer, sem intervenção especial de Deus pode conhecer várias verdades religiosas, por exemplo, que há um só Deus, que temos alma, que existe outra vida depois da morte, etc. .
b) A Revelação é a manifestação feita por Deus aos homens de algumas verdades de ordem religiosa; por exemplo, que Jesus Cristo é o Filho de Deus, feito homem, e que morreu para nos salvar; ou que em Deus há três Pessoas distintas, etc. 
O conjunto de verdades religiosas que o homem pode conhecer pela simples luz da razão se chama Religião NATURAL.

O conjunto de verdades que Deus manifestou ao homem por conduto da Revelação, chama-se Religião REVELADA. Como o veremos a seguir, a Religião revelada é a Religião Católica.

1.5.2 - Não basta a Religião natural

Não basta para nos salvar a Religião natural; ou seja, não basta aceitando as verdades religiosas que nos pode ensinar a luz da razão; é necessário que aceitemos a religião revelada.

Deus por sua bondade infinita quis abrir outro caminho que leve diretamente a Ele e com maior facilidade: o da religião sobrenatural: "Quis sua sabedoria e bondade revelar-se a Si mesmo, ao gênero humano, e revelar os decretos eternos de sua vontade por outro caminho, e este sobrenatural" (Com. Vaticano I., Const. dogm. DeiFilius, C. 2; Dz. 1785).
A razão é que não podemos nem conhecer, nem amar, nem servir a Deus como Ele quer e manda, a não ser aceitando as verdades, preceitos e meios de santificação que Ele se dignou nos manifestar. 
Outra maneira de atuar significaria desprezo do que Deus disse, considerando-o inútil ou indiferente. Estão, pois, em grave engano quem diz: "Eu sou honrado: eu não roubo, nem mato. Com isto tenho meios para me salvar". Isto lhes bastará para evitar o cárcere e a desonra humana. Mas não poderá salvar-se se não cumprir as condições que Deus lhe impôs para isso. 
Ele é nosso dono e Senhor, e nos criou para seu trabalho. Em conseqüência estamos obrigados a honrá-lo e servi-lo na forma que se digne determiná-lo.

Se Deus não tivesse feito nenhuma revelação, bastaria a religião natural para salvar-se. Do momento em que Deus revela, não cabe pensar que dá no mesmo uma religião ou outra indiferença religiosa, mas sim, é preciso aceitar essa revelação divina que constitui a única religião verdadeira.


2. 
1.5.3 - Deveres que nos impõe a Religião revelada

A religião revelada nos impõe, em especial, três deveres: 
O 1o.- é aceitar as verdades que Deus nos manifestou. 
O 2o.- é cumprir os mandamentos que nos impôs. 
O 3o - é ir aos meios de santificação com que Ele mesmo quis ajudar nossa debilidade.

Deus, em efeito, não quis deixar o homem abandonado ao engano, ao vício e a sua própria debilidade; mas sim:

a) Para liberá-lo do engano, Ele mesmo lhe revelou as verdades que deve conhecer e acreditar. 
b) Para liberá-lo do vício, Ele mesmo lhe determinou as obras que deve praticar, e as que deve evitar. 
c) Para ajudar sua debilidade, oferece-lhe sua graça por conduto dos sacramentos, da oração, etc., obrigando-o a recorrer a estes meios. 
Como conclusão, devemos dizer que não podemos conhecer amar e servir a Deus, nem salvar nossa alma, se não aceitarmos e praticamos a religião revelada Integralmente.

Cristo não disse somente: "O que não acreditar se condenará" (fé), mas também: "se quer alcançar a vida, guarda os mandamentos" (moral) e, "se a gente não nascer da água e do Espírito Santo, não pode ver o reino de Deus", e "se não comerem minha carne, não terão vida em vós" (sacramentos) (cfr. Mc. 16, 16, MT. 19, 17, Jn. 3, 5, jn. 6, 54). 
"Com freqüência, o homem atual não sabe o que leva dentro, no profundo de seu ânimo, de seu coração. Muitas vezes se sente inseguro sobre o sentido de sua vida neste mundo. sente-se invadido pela dúvida, que se transforma em desespero. Permitam, pois, rogo-lhes isso, imploro-lhes isso com humildade e com confiança, permitam que Cristo fale como homem. Só Ele tem palavras de vida, sim, de vida eterna!" (João Paulo II, Homilia na inauguração de seu Pontificado, XXII-XI-MDCCCCVLVIII).

2. - A revelação sobrenatural

Pelo Pbro. Paulo Arce Gargollo

2.1 
A RELIGIÃO REVELADA OU REVELAÇÃO
2.1.1 
Natureza da Revelação 

a) Noção 

A Revelação é a manifestação que Deus faz aos homens em forma extraordinária, de algumas verdades religiosas, lhes impondo a obrigação de acreditaria. Diz-se: "em forma extraordinária", para distingui-la do conhecimento natural e ordinário que alcançamos pela razão.

Geralmente Deus revela assim: manifesta as verdades que deseja se conheçam algum homem eleito pelo, manda-lhe que as ensine a outros, e comprova com milagres que na verdade O as revelou. "Só Deus pode nos outorgar um conhecimento reto e pleno de Si mesmo, revelando-se a Si mesmo como Pai, Filho e Espírito Santo, de cuja vida eterna está chamada pela graça a participar aqui, na terra, na escuridão da fé, e, depois da morte, na luz eterna" (Paulo VI, O Credo do Povo de Deus, N. g).

b) - Revelações públicas e privadas 

Falando num sentido geral, podemos distinguir duas classes de revelações: 
a Revelação pública e as Revelações privadas. 

1.º - Revelação pública é a que tem feito Deus diretamente para a utilidade de todo o gênero humano. Por exemplo, a feita ao Moisés no Sinai e a efetuada por Nosso Senhor Jesus Cristo. 

SANTA MARGARIDA MARIA ALACOQUE
- DEVOÇÃO DO SAGRADO CORAÇÃO DE
JESUS-
2.º - Revelações privadas são as que tem feito a algumas pessoas para sua utilidade particular. Exemplos: as feitas a Santa Gertrudes, Santa Tereza de Jesus, Santa Margarida Maria, quando Nosso Senhor pediu o estabelecimento da festa do Sagrado Coração e da devoção das primeiras sextas-feiras, etc.

A Revelação pública foi feita por Deus diretamente para a utilidade de todo o gênero humano, e impõe a obrigação de aceitá-la por todos os homens. 

As revelações privadas diretamente são feitas para a utilidade particular, e não impõem a obrigação das aceitar a não ser às pessoas a quem foi feitas, ou às pessoas que têm plena certeza delas, o que ocorre poucas vezes. 

Em relação às revelações privadas convém advertir:

a) As revelações privadas não formam parte da fé, nem ensinam verdades novas; mas sim foram feitas para ilustrar as verdades já reveladas, e nos fazer adiantar na perfeição cristã. 

b) A Igreja não as aprova a não ser depois de amadurecido exame; e ao as aprovar não pretende ensinar que quanto delas se diga seja verdadeiro, nem muito menos as fazer 
obrigatórias. Unicamente garante que nelas não se diz nada contrário à fé e aos bons costumes. 

c) Não podemos desprezar as revelações privadas, pois em geral contêm ensinos de grande utilidade para a vida cristã. 

d) Algumas vezes a aprovação da Igreja não é uma simples certificação de que não há nelas nada contra a fé e a moral; a não ser uma afirmação de sua origem divina. Tal passa, por exemplo, com as revelações de escapulário de Carmem a São Simão, da devoção ao Sagrado Coração a Santa Margarida Maria, etc. 

Embora em nenhum caso chegam a ser artigo de fé. As demais revelações só nos merecem fé humana, de acordo com as condições intelectuais e morais da pessoa que as teve.

A Revelação pública terminou com os Apóstolos: depois deles Deus não revelou novas verdades que sejam objeto de fé. 

c) - Conteúdo da Revelação 

"Pela divina Revelação Deus quis comunicar Ele mesmo e também os decretos eternos de sua vontade a respeito da salvação dos homens, para lhes fazer partícipes dos bens divinos que ultrapassam de modo absoluto a inteligência da mente humana" (Conc. Vaticano II, Const. dogm. Do Verbum, núm. 6).

O conteúdo da Revelação é o mesmo Deus e seus decretos eternos de salvação. 

Destas verdades: 

a) umas não podiam conhecer nossa razão; b) outras podiam as conhecer, mas com muita dificuldade e incerteza. Assim de maneira nenhuma podíamos conhecer o mistério da Santissima Trindade. Podíamos conhecer, mas com dificuldade, incerteza e mescla de engano outras verdades; por exemplo, que não há a não ser um só Deus, e que é Espírito Puro e Criador de quanto existe que a alma humana é imortal, etc.

1.º Deus quis nos revelar verdades que de, nenhuma maneira podíamos conhecer pela pura razão, com o propósito de nos dar a conhecer a ordem sobrenatural. 
A ordem sobrenatural consiste na elevação de homem pela graça lhe santifiquem, de simples criatura à dignidade de filho de Deus e herdeiro do céu. E também em qual meio Deus escolheu para nos devolver o caminho e o direito ao céu que perdemos pelo pecado; principalmente os mistérios da Encarnação e Redenção.

2.º Deus quis nos manifestar verdades que nossa razão podía connhcer, mas com dificuldade, incerteza e mescla de engano, para que todos - os homens pudessem conhecê-la com facilidade, com certeza e sem mescla de engano (cfr. Conc. Vaticano I, Const. dogm. DeiFilius, Dz. 1786). 

2.2 - NECESSIDADE DA REVELAÇÃO 
2.2.1 

Necessidade absoluta e necessidade moral

Uma coisa pode ser necessária de dois modos: 

a) É absolutamente necessária, quando sem ela nos é de todo ponto impossível conseguir o que desejamos. 

b) É moralmente necessária quando sem ela podemos alcançar o que desejamos, mas com grave dificuldade e deficiências. Assim sem estudar em alguma forma nos é absolutamente impossível aprender. E sem professor nos é muito difícil, isto é, quase impossível aprender uma ciência com alto grau de dificuldade, como a física nuclear ou a filosofia. Com efeito são muito poucos os que têm a inteligência e a perseverança suficientes para coroar sozinhos um estudo dessa natureza. Além disso, os que estudam sem professor estão expostos a graves deficiências, por exemplo, enganos, dúvidas, lacunas; a fazer um estudo errado, incompleto e pouco firme:

2.2.2 - Em que sentido é necessária a Revelação 

A Revelação é absolutamente necessária num sentido, e moralmente necessária em outro.

1.º A Revelação é absolutamente necessária para conhecer a ordem sobrenatural, ao que Deus se dignou nos elevar. "Posto que nos elevassem à ordem sobrenatural, era indispensável que nos manifestasse essa ordem", diz São Tomas (S. Th., Q. 1, A. l). 

Que vontade um menino com que uma pessoa muito rica o aceite por filho, e o nomeie herdeiro de uma grande soma, se não lhe avisar que o constituiu herdeiro, nem as condições necessárias para receber a herança? Da mesma maneira, o que teríamos ganhado se que Deus nos tivesse feito seus filhos e herdeiros, se não nos tivesse revelado nossa condição de filhos e os meios necessários para alcançar a herança do céu?

2.º - A. Revelação é moralmente necessária para que as verdades religiosas de ordem natural possam ser conhecidas por todos com facilidade, com firme certeza e sem mescla de engano algum (cfr. Dz. 1786, Conc. Vat. II, Const. DEIVERBUM, N. 6). 

Com efeito, embora não é impossível que os melhores dotados possam chegar por si só a esses conhecimentos, farão-o com dificuldade e incerteza, e, para a generalidade 
dos homens a Revelação seguiria sendo necessária. Já São Tomas advertia que grande parte dos homens por carecer de talento, ou de tempo, ou de formação, ou por acharem-se dominados por paixões e interesses pessoais, não chegariam por si mesmos a este conhecimento (cfr. C. G., 1, 4).
Por sua parte, também a história prova esta necessidade: até os maiores filósofos da antigüidade caíram em graves enganos de ordem religiosa e moral; e que os povos a quem não chegou atualmente a luz da Revelação vivem ainda hoje inundados em 
graves enganos.

2.3 - NOÇÃO DO MISTÉRIO E DOGMA 
2.3.1 Os mistérios 

1.º - Mistério em geral é uma verdade que não podemos compreender, por transcender a nosso entendimento. A natureza está cheia de mistérios e vivemos rodeados de realidades que não podemos compreender. Ninguém tem sabor de ciência certa - ao menos hoje em dia- o que é exatamente a força gravitacional e muito menos se for suscetível de controle. Ainda há muitos "mistérios" no organismo humano e não digamos nas realidades que estão fisicamente muito afastadas de nós, por exemplo: o que haverá no Aldebaram, que está a 55 anos luz da terra e é 40 vezes maior que nosso sol?

2.º - Mistério em sentido estrito é uma verdade que não podemos compreender, mas que conhecemos e acreditam porque Deus nos revelou isso. Por exemplo, o da Santissima Trindade. Não deve sentir saudades que na religião haja mistérios, porque se a cada passo os encontramos nos seres limitados da natureza, com maior razão em Deus, Ser infinito, que ultrapassa imensamente a capacidade de nosso entendimento. 

"Nunca acreditaria na divindade de uma religião que não tem mistérios", disse um célebre pensador. Com efeito, um Deus que cabe dentro de meu entendimento já não é Deus; e uma religião que em todo está ao alcance dos homens, não é divina.

Os mistérios não são contrários à razão humana, mas sim unicamente estão por cima dela. Por exemplo, as leis da eletricidade, que são conhecidas por um bom físico, são um mistério para o ignorante. Mas isto não quer dizer que vá contra sua razão, mas sim lhe são superiores.

Não pode haver contradição entre a razão e os mistérios revelados, porque sendo Deus de uma vez autor da razão e da Revelação, qualquer contradição entre a razão e os mistérios revelados implicaria contradição no mesmo Deus; o que não é dado supor.

2.3.2 - Dogmas 

Dogma em sentido amplo, é uma verdade contida na Revelação divina. Dogma em sentido estrito são as verdades reveladas Por Deus e propostas como tais pelo Magistério da Igreja aos fiéis, com a obrigação de acreditar nelas. A palavra dogma tem dois sentidos: umas vezes significa uma verdade determinada e definida, por exemplo, o dogma do Encargo da Virgem; outras, o conjunto das verdades reveladas, como quando dizemos: o dogma católico. O dogma em sentido estrito é objeto de fé divina e católica. É de fé divina por proceder de uma revelação divina, e é objeto de fé católica por ser uma verdade proposta pelo Magistério infalível da Igreja. Quem nega opõe em dúvida de um modo pertinaz as verdades que têm que ser acreditadas, comete o pecado de heresia. Como pode observar-se no dogma há dois elementos:

1) É uma verdade revelada Por Deus e se acha portanto contida seja na Biblia Sagrada, seja na Tradição ou em ambas. uma verdade proposta pelo Magistério da Igreja com obrigação de acreditar nela. Essa proposta pode fazê-la-a Igreja, bem de forma extraordinária, por uma solene definição do Papa ou de um Concílio Universal de acordo com o Papa, ou pelo magistério ordinário e universal de toda a Igreja.


2. - O DEPOSITO DA REVELAÇÃO

O conjunto de verdades reveladas Por Deus, que se entregaram à Igreja e que o Magistério eclesiástico custódia é o depósito da Revelação. A Revelação está contida na Biblia Sagrada e na tradição: 

a) Uma parte das verdades reveladas foi escrita por aqueles a quem Deus as revelou, e se chama Biblia Sagrada; 

b) A outra parte não foi escrita, a não ser transmitida verbalmente e se chama Tradição.

A Biblia Sagrada e a Tradição contêm, pois, toda a doutrina revelada; o Magistério da Igreja custódia e interpreta essa doutrina. Tanto a Bíblia como a Tradição são a palavra de Deus, isto é, seu ensino comprovado por milagres e profecias; com a diferença de que a Tradição não foi escrita por aqueles a quem Deus a revelou; embora depois com o tempo outras pessoas sim puderam escrevê-la, para conservá-la e transmiti-la com maior fidelidade. O conjunto das verdades da Bíblia e da Tradição se chama "Depósito da fé ", ou "Depósito da Revelação ". 

O Concílio Vaticano II, em continuidade com o de Trento e com o Vaticano I, ensina: "Deus dispôs, com sua grande bondade, que tudo o que tinha revelado para a salvação de toda a gente se conservasse íntegro para sempre e se fora transmitindo a todas as gerações" (Conc. Vaticano II, Const. Dogm. DEIVERBUM, núm. 7).

2.4.1 - A Biblia Sagrada 

a) Sua natureza 

A Biblia Sagrada é a palavra de Deus, posta por escrito sob a inspiração do Espírito Santo, por aqueles a quem Deus a revelou. Em con-seqüencia, "tem a Deus por autor", como diz o Concílio Vaticano I (Dz. 1 7 8 7). As Sagradas Escrituras se chama Bíblia (do grego biblos, que significa livro), porque é o livro por excelência. 

À Bíblia lhe chama também: BÍblia Sagrada, Livros Sagrados, Livros Inspirados, Palavra de Deus, chamam-se as versões das Sagradas Escrituras às traduções que se fizeram da Bíblia a outras línguas distintas daquelas nas que se escreveram originalmente, os 1ivros que a formam (hebreu, grego e aramaico). É célebre a tradução dos setenta, que remonta mais ou menos ao ano 130 a.C. É a versão dos livros do Antigo Testamento, do hebreu ao grego, feita, segundo a tradição, por setenta sábios da Alexandria. 

As versões mais importantes na Igreja são:

A Vulgata e a Neo vulgata.

A Vulgata é a tradução ao latim que fez São Jeronimo, a finais do século IV. Esta versão foi solenemente declarada como autêntica pelo Concílio de Trento (1546). Chama-se Vulgata porque então o latim era reputado língua vulgar ou popular com referencia ao grego. 

A Neo vulgata é a mesma versão da Vulgata, a que se incorporaram os avanços e descobrimentos mais recentes. O Papa João Paulo a aprovou e promulgou como edição típica em 1979. O Papa fez isso para que esta nova versão servisse como base segura para fazer traduções da Bíblia às línguas modernas e para realizar estudos bíblicos.


b) Inspiração das Sagradas Escrituras 

A inspiração divina das Escrituras consiste em três coisas, ou seja: a) Deus induziu os autores a que escrevessem os livros Santos; b) sugeriu-lhes o que deviam dizer; 
c) preservou-os de engano. 


Não consiste, pois em que a Igreja tivesse aprovado com sua autoridade livros escrita por indústria humana; a não ser nas três condições indicadas. As Sagradas Escrituras é a um tempo obra de Deus e do homem; de Deus, como causa principal; do homem, como causa instrumental. Quando o músico se serve de um instrumento para obter sons, o artista é a causa principal do som, e o instrumento a causa instrumental. Assim Deus, dizem os Santos Pais, valeu-se do homem como de um instrumento para escrever os livros sagrados. Embora o autor é um instrumento nas mãos de Deus, não deixa de ser um instrumento inteligente e livre, que usa conscientemente suas faculdades: sentidos, inteligência, memória, vontade. Em conseqüência, o escritor sagrado: a) Pode utilizar conhecimentos adquiridos por ele de antemão; b) Conserva sua personalidade, seu estilo e expressão peculiares, até incorreções de linguagem; pois a estas coisas não lhes estende a inspiração.

As mesmas Escrituras afirmam o fato da inspiração. Assim Cristo diz que "David falou inspirado pelo Espírito Santo" (Mc. 12, 3 6). E S. Paulo declara que "Toda escrita é inspirada Por Deus " (II Tm. 3, 16). 

c) Divisão das Sagradas Escrituras 

A Biblia Sagrada se divide em Antigo e Novo Testamento. O Antigo compreende os livros escritos antes de Cristo. O Novo o escrito depois de Cristo. Testamento significa pacto ou aliança. A Revelação, pelas promessas que faz Deus nela, e pelas obrigações que impõe, é um verdadeiro pacto entre Deus e os Homens.

C. 1 - Antigo Testamento 

O Antigo Testamento consta de 46 livros, que se dividem em 21 históricos, 7 didáticos e 18 proféticos. 

a) Os históricos descrevem a história do Israel, ou de alguns de seus mais célebres 
personagens. 

b) Os didáticos (de didakein, ensinar) são livros de ensino religiosos e moral. 

c) Os proféticos anunciam a vinda do Mesías e repreendem ao povo por suas infidelidades. 

Os didáticos e parte dos proféticos estão escritos em verso.

QUADRO SINÓTICO DO ANTIGO TESTAMENTO

c.2 - Novo Testamento 

O Novo Testamento consta de 27 livros: 5 históricos, ou seja: os 4 Evangelhos e os Fatos dos Apóstolos; 21 doutrinais, que são as Epístolas; e um Profético que é o Apocalipse.

QUADRO SINÓTICO DO NOVO TESTAMENTO

Menção especial aos Evangelhos. Os 4 Evangelhos de São Mateus, São Marcos, São Lucas e São João nos referem à vida e ensinamentos de Nosso Senhor Jesus Cristo. 

Eles devem ser para o católico o livro de maior estimativa e estudos, porque contêm os exemplos de divino modelo e os ensinos do divino Professor. 

"Tanto insígnia Cristo por suas palavras como por suas obras", diz Santo Agostinho. Por isso todo o Evangelho merece ser atentamente meditado. Digamos uma palavra sobre os símbolos com que se representa aos evangelistas. Estão tirados dos fatos narrados no primeiro capítulo de cada Evangelho. 

1.º - São Mateus começa seu Evangelho pela origem de Cristo assim que homem. Por isso lhe deu por símbolo um rosto humano. 

2 - São Marcos começa pela pregação de São João Batista no deserto. Seu símbolo é um leão, animal do deserto. 

3 - São Lucas começa pelo sacrifício de Zacarias, pai do Batista. Seu símbolo é um bezerro, animal por excelência dos sacrifícios. 

4 - São João começa com uma página sublirne sobre a geração eterna do Verbo. Seu símbolo é uma águia, animal que se abate nas alturas.

O profeta Ezequiel (1, 4-12), tem uma visão, da que também se tomaram essas figuras.

QUADRO SINÓTICO

d) Livros "apócrifos" e bíblias protestantes 

Um Livro apócrifo é aquele que, tendo um argumento ou título semelhante aos livros inspirados, não tem um autor certo e não está incluído no cânon bíblico fixado pela Igreja, porque não foi divinamente inspirado e por conter alguns enganos. 

A Bíblia católica e as protestantes são iguais? Não. Às bíblias protestantes suprimiram alguns livros que estão na Bíblia católica; por exemplo: do Antigo Testamento: Sabedoria, Judite, Tobias, Eclesiástes e II Macabeus e do Novo: Epístolas do Santiago, de São Pedro e São João. Além disso, nos livros que conservam, modificam algumas palavras para apoiar suas idéias errôneas. 

2.4.2 - A Tradição 

a) - Sua natureza chama-se Tradição à doutrina revelada por Deus que não está contida na Escritura, mas sim se conservou por diversos meios. Por isso se diz que a Tradição é "complemento" da Sagrada Escritura; assim, por exemplo, não tudo o que Nosso Senhor Jesus Cristo fez ou disse foi escrito, e, entretanto foi irradiado infalivelmente, graças à assistência do Espírito Santo.

A Tradição chegou até nós pela pregação, a vida mesma da Igreja, os escritos dos Santos Padres, a liturgia e outras diferentes formas, como em seguida veremos. 

b) - Valor da Tradição 

A Tradição, acompanhada das devidas condições, tem o mesmo valor que a Sagrada Escritura, porque também é a palavra de Deus, fielmente transmitida até nós. 

Os protestantes lhe negam todo valor, e ao fazê-lo contradizem a um mesmo tempo a razão e as Escrituras. 

O Concílio Vaticano II, em continuidade com o de Trento e com o Vaticano I, explica. - "Deus dispôs, com sua grande bondade, que tudo o que tinha revelado para a salvação de todas as pessoas que se conservassem integras para sempre e se fora transmitindo a todas as gerações " (Conc. Vaticano II, Const. dogm. DEÍVERBUM, núm. 7).

B. 1 - Provas de razão 

a. - A Tradição, isto é, a pregação dos Apóstolos é anterior à Bíblia Sagrada, e durante muitos anos foi a única regra de fé. Em efeito a pregação dos Apóstolos começou o mesmo ano da morte de Cristo (ano 33). Em troca, os livros da Bíblia Sagrada não foram escritos a não ser desde os anos 50 ou 100; e, sobretudo não foram conhecidos pela Igreja universal, a não ser no curso dos primeiros séculos, porque no princípio só foram conhecidos, pelas Igrejas particulares a que foram destinados. Logo, das duas uma: ou durante estes primeiros anos e séculos não havia na Igreja fonte nenhuma fidedigna, o que é inadmissível, pois equivale a dizer que não houve fé neles ou terá que admitir uma fonte de fé distinta da Bíblia, a Tradição ou ensino dos Apóstolos e seus sucessores. 

2.ª - Não se pode saber com certeza que livros contenham em realidade a doutrina de Cristo, nem qual seja seu verdadeiro sentido, mas sim pelo ensino da Igreja. Logo este ensino é norma ou regra muito importante de nossa fé . 

3. - Se a norma de fé fosse só a Escritura, e não os ensinos da Igreja só poderiam salvá-los aqueles que lêem a Bíblia; conclusão inadmissível. 

Em efeito há muitas pessoas que não sabem ler, ou não têm facilidade de procurar uma Bíblia. E aqui devemos pensar não só no grande número de pessoas ignorantes de nossos dias e países, a não ser sobre tudo na dificuldade máxima de conseguir uma Bíblia antes que tirasse o chapéu a imprensa: e nos cristãos convertidos em terra de missões, que não têm Bíblia no único idioma que conhecem.

B. - 2 Provas das Sagradas Escrituras prova-se que o ensino da Igreja é fonte da fé: 

1.º - Pelas palavras de Cristo. Ele disse aos Apóstolos: "Vão e preguem o Evangelho a toda criatura" (Mc. 16, 15) e não "Vão e escrevam livros"; e "que a vós escuta, me escuta"; (Lc. 10,16) e não o que a vós lê. 

2 - Pelo ensino de São Paulo, que escreve assim aos fiéis de Tessalônica: "Lhes mantenha firmes na fé, e conservem as tradições que aprendestes, seja pela pregação, seja por minha epístola" (II Ls. 2, 14). Aqui lhe dá exatamente o mesmo valor, como fonte de fé, a sua Epístola (Escrituras) e a sua pregação (Tradição). 

Diz também a Timóteu: "O que ouviste que mim diante de muitas testemunhas, confia-o a outros homens fiéis, capazes de instruir a outros" (II Tim. 2, 2). Confia, pois a fé ao ensino, já à sua própria, já a de seus discípulos.

3 - São João declara que se se escrevesse tudo o que Cristo disse não caberia os livros no mundo; linguagem figurada que dá a entender que deixa sem escrever muitas coisas a respeito de Cristo (cfr. Jn. 21, 25). Diz também em sua 2a. carta: "Embora tinha muitas coisas que escrevemos, não quis fazê-lo por meio de tinta e papel, porque espero lhes ver e lhes falar pessoalmente" (II Jn. 12). Tanto a razão como as Escrituras ensinam, pois, o valor da Tradição como fonte da fé. E os protestantes devem aceitá-la se na verdade respeitam o ensino da Escrituras. 

c) - Fontes da Tradição 

A Tradição se acha contida principalmente: 

1 nos símbolos da fé, 
2 na liturgia e vida da Igreja, 
3 nos escritos dos Pais e Doutores da Igreja. 

C. 1 - Símbolos de fé 

Símbolos de fé são certas fórmulas que compendiam as principais verdades dela. Os principais som: 

a) O Símbolo dos Apóstolos, que remonta à idade apostólica. É o Credo. 

b) O Símbolo de São Anastácio, que contém uma ampla declaração dos mistérios da Santa Trindade e a Encarnação. Aos símbolos devem adicioná-las Profissões de Fé, que são também formula em que se confessam os dogmas e se condenam os enganos contrários. A principal é a ordenada pelo Concílio de Trento.

c.2 - A liturgia e a vida da Igreja. 

A tradição se acha também contida nos ritos da liturgia, que muitas vezes são uma confissão implícita da fé. Assim, o rito de defuntos é uma confissão da crença no purgatório, pois nem os bem aventurados necessitam ajuda, nem os condenados podem recebê-la. A Santa Missa é uma confissão do dogma da Redenção, etc.

Por outra parte, como explica o Concílio Vaticano II (cfr. Const. dogm. DeiVerbum), Cristo quis que sua Revelação incluíra não só seus ensinos orais mas também também sua vida e suas obras. E este exemplo dele, contínuo na pessoa e ministério dos Apóstolos e seu sucesso cabeça de gado, plasmado nas instituições e a vida e sentir do povo cristão, forma também parte da Tradição. O Concílio Vaticano II vem pois a nos dizer que, no fundo, a Tradição não é outra coisa que a mesma Igreja, que em sua doutrina, em sua vida e em seu culto, perpetúa e transmite a todas as gerações tudo o que ela é e tudo o que Ela cria (cfr. DeiVerbum, N. 8).

c.3 - Pais e Doutores da Igreja

a) Pais da Igreja são os escritores da antigüidade cristã (anteriores ao século VII) que se distinguiram pela pureza de sua fé e por sua santidade. Chamam-se Pais apostólicos aos que conheceram os Apóstolos, como São Inácio da Antioquia, São Policarpo de Esina, São Clemente Romano, etc. 

b) Doutores da Igreja são aqueles escritores que além de distinguir-se pela pureza de sua fé e a santidade, destacaram por sua ciência eminente. 

Os quatro grandes doutores na Igreja grega são: São Atanásio, São Basílio, São Gregório Nacianceno e São João Crisóstomo. E os quatro grandes doutores da Igreja latina são: São Ambrósio, São Jerônimo, São Agostinho e São Gregório Magno. distinguem-se também entre os doutores: São Bernardo, São Anselmo, São Fortuna, São Isidoro de Sevilha, São Francisco de Sai, São João da Cruz, São Alfonso Maria de Ligório e sobretudo São Tomás de Aquino.

São Tomás de Aquino é possivelmente a maior luminária da Igreja. Sobressaiu-se especialmente em Sagrada Teologia. Sua obra mais conhecida é a Sumula Teológica. 

Em muitos documentos os Papas manifestaram sua vontade de que a doutrina de São Tomás orientasse o ensino católico.

Sobre a legitimidade e valor das diversas fontes da Tradição, compete-lhe julgar unicamente à Igreja Católica, que é esta de toda a verdade revelada, coluna e fundamento da verdade. Em outras palavras, a tradição é infalível só quando está reconhecida e sancionada pelo Magistério da Igreja.

2.4.3 - O Magistério da Igreja 

O ofício de interpretar autenticamente a palavra de Deus, oral ou escrita, foi encomendado por Deus unicamente ao Magistério da Igreja. Já havíamos dito como é o Magistério quem sanciona a infalibilidade de uma verdade contida na Tradição; 

agora nos deteremos falar de sua intervenção em relação à Bíblia. 

a) - A Igreja depositária da Palavra de Deus. Três poderes correspondem à Igreja em relação aos livros sagrados: fixar seu cânon, determinar seu sentido e velar por sua integridade (cfr. Const. dogm. DeiVerbum, N.10) 

1 Fixar o cânon das escrituras significa determinar que livros se devem ter por revelados, e quais não. Cânon significa aqui preparada ou ordem dos livros revelados. Cristo, ao deixar a sua Igreja a faculdade de velar por sua doutrina, teve que lhe dar o poder de determinar em que livros se achava esta doutrina. De outra sorte os fiéis não tivessem sabido a que ater-se matéria de tanta transcendência. É de se advertir que nos primeiros séculos muitos livros não revelados trataram de passar por revelados.

2 - Determinar o sentido significa interpretar qual é a verdadeira maneira de entendê-la, especialmente nas passagens obscuras e difíceis. As Sagradas Escrituras é um livro divino e misterioso, no qual, como diz São Pedro, "Há coisas difíceis de entender, cujo sentido falseiam os não doutos para sua própria perdição" (II P. 3, 16). Haverá muitos pseudo profetas, seguidos por multidões diz o mesmo apóstolo (II P. 2, 1 e 2).

3 - Velar por sua integridade quer dizer estar alerta, para que a Escritura não vá sofrer alteração ou menoscabo. Só a Igreja tem este triplo poder, porque só a ela confiou Cristo o depósito da fé, e lhe deu a missão de ensinar. 

b) - Falsidade do livre exame 

Na imagem: Aristóteles e Averroes contra a torre da falsidade
O livre exame da Bíblia, doutrina fundamental do protestantismo, consiste em admitir que cada um "tem direito" de interpretar a seu gosto a Biblia Sagrada.

O livre exame não pode aceitar-se, porque resultariam tantas doutrinas e Igrejas quantas interpretações; e é evidente que Cristo quis fundar a não ser uma só Igreja com uma só doutrina. Como conseqüência do livre exame o protestantismo se acha dividido em inumeráveis seitas, que professam doutrinas contraditórias. Outra prova de que o livre exame conduz ao engano, é que os hereges de todos os tempos preferiram defender seus enganos com falsas interpretações das Escrituras.

Assim, em vista do perigo de interpretações subjetivas ou heterodoxas, a Igreja indica que as edições das Sagradas Escrituras "só podem publicar-se se estão autorizadas pela Sede Apostólica ou pela Conferência Episcopal" (CIC, C. 825 & l), com notas explicativas necessárias e suficientes, porque são muitos as passagens difíceis.

2.5 - IMUTABILIDADE DO "DEPOSITO" DA REVELAÇÃO

A Revelação de Deus aos homens tem sua culminação em Jesus Cristo. Já não é um mensageiro de Deus o que deve revelar um aspecto do plano salvador: é Deus mesmo o que, em sua mesma realidade pessoal, revela o Ser e o atuar divinos. "Deus ultimamente nos falou por meio de seu Filho" (Heb. 1, l). Em Jesus culmina a Revelação, pois é a Palavra, o Verbo feito carne (cfr. Jn. 1,14). Jesus Cristo, "com toda sua presença e manifestação, com suas palavras e obras, prodígios e milagres, e, acima de tudo, com sua morte e ressurreição e, finalmente, enviando ao Espírito de verdade, culmina plenamente a Revelação" (Const, dogm. Do Verbum, N. 4).

Do anterior se desprende que com a morte do último Apóstolo - testemunha ocular qualificada -, fechou-se o conteúdo do depósito revelado por Deus. A Igreja, que é depositária da Palavra de Deus que é imutável, não pode tirar ou acrescentar nada. 

Pode falar-se, entretanto, de um progresso no modo de explicar essas verdades. 

2.5.1 - Certo progresso 

Todas as verdades ensinadas por Deus aos homens estão contidas nas Escrituras e na Tradição. Mas não se conheceram e aprofundado em toda sua amplitude. De acordo com estas duas idéias precisemos em que sentido se pode admitir o progresso do dogma católico, e em que sentido não podemos fixar estes três princípios: 

1 Com a morte dos Apóstolos ficou terminada a Revelação; e depois deles Deus não revelou nenhuma verdade nova. Em conseqüência, quando a Igreja define solenemente um novo dogma, não estabelece uma verdade nova, não contida na Escritura e na Tradição; mas sim pelo contrário declaram que esta verdade está contida nas Sagradas Escrituras e na Tradição; e que pelo mesmo terá que admiti-la.

2 Os dogmas não podem trocar de sentido; mas sim podem trocar os termos em que são expressos. 

a) Não podem trocar de sentido e repugna que, o que a Igreja aceitou ontem como verdadeiro, hoje o recusa, como falso; ou o caso inverso. Isso equivaleria a negar a assistência que Deus prometeu. 

b) Mas sim acontece que os dogmas se podem expressar com palavras mais claras e precisas. 

Exemplos: O dogma da Santíssima Trindade se expressou no princípio dizendo que Deus é Pai, Filho e Espírito Santo. Foi Tertuliano quem empregou pela primeira vez a fórmula que depois ficou definitiva: Em Deus há Três Pessoas e uma só é sua Natureza. De um princípio se admitiu que pelas palavras da consagração o pão se troca pelo corpo de Cristo. Mas a palavra transubstanciação (mudança de uma substância a outra) empregou-a pela primeira vez a Igreja no IV Concílio de Letram (1215). Em conseqüência o dogma é invariável, mas as explicações e termos dos teólogos podem trocar. A Igreja só os aceita como a melhor maneira de expressar no momento o Dogma de que se trata.

3 O progresso do Dogma consiste em que a Igreja insígnia de modo claro e explícito, verdades que estavam contidas nas Escrituras e na Tradição de modo velado e implícito. Assim o dogma da infalibilidade do Papa estava contida em forma implícita e velada nas palavras: "Você é Pedro, e sobre ti edificarei minha Igreja; e as portas do inferno não prevalecerão contra ela" (MT. 16, 18). Ou nestas outras, dirigidas também a São Pedro: "roguei por ti para que sua fé não pereça, e você confirmado nela, confirma a seus irmãos" (Luc. 22, 32). E o Concílio Vaticano I definiu o dogma de uma maneira precisa e explícita, precisando que o Papa é infalível quando fala de dogma ou de moral a toda a Igreja na qualidade de Mestre supremo.

Não deve sentir saudades deste progresso pois as Sagradas Escrituras é um livro cheio de profunda e misteriosa sabedoria, de sorte que não entrega de uma vez todas as verdades que contém, mas sim à medida que se estuda e se reflete sobre elas.

TEOLOGIA DOGMÁTICA - Paulo Arce G..

3. A FÉ SOBRENATURAL: ACREDITO EM DEUS

Tratamos agora da fé, imediatamente depois de ter falado da Revelação. Esta ordem perfeitamente lógica: a fé é a resposta ou aceitação do homem a tudo aquilo que Deus lhe revelou.

4. 
3.1 - NATUREZA DA FÉ 
3.1.1 - Noção geral

Fé em geral é admitir por certo o que outro nos diz. Por exemplo, quando acredito num fato que me conta uma pessoa que merece crédito. Assim, o que caracteriza à fé é admitir uma coisa porque outro a diz; ou o que é o mesmo, admiti-la pelo testemunho do outro.

"Quando Deus revela, lhe deve a "obediência da fé" (Rom. 16, 26; cfr. Rom. 1, 5; Cor. o, 5-6), pela qual o homem se entrega totalmente com liberdade a Deus, emprestando plena comemoração da inteligência e da vontade a Deus revelador e dando voluntariamente seu assentimento à revelação que Ele lhe faz" (Conc. Vaticano II, Const. dogm. DeiVerbum, núm. 

5).

A fé se diferencia: 

a) da opinião que não admite as coisas como certas, mas sim como simplesmente prováveis. 

A fé não é mera opinião porque não dá só probabilidade, a não ser certeza moral, pelo que se crie. Assim se acredita, por exemplo, a quase totalidade dos fatos históricos, que não se conhecem pessoalmente, a não ser só por testemunho de outros.

b) da ciência, que admite as coisas como certas, mas não porque outro as diz, mas sim porque a gente vê ou compreende que são assim. 

Por exemplo, não admitimos que é de dia ou que dois e dois sejam quatro porque outro o diga, se não porque vemos e compreendemos que é assim.

Na fé se admite a verdade com toda certeza, não pela evidência da verdade em si, mas sim pela confiança daquele que nos ensina a verdade. 

A fé se divide em divina e humana, conforme admitamos: o que Deus ou o homem nos ensinam. 

Há muitas verdades de fé humana, porque são muitas as coisas que não podemos saber mas sim pelo testemunho de outros; por exemplo, quais são nossos pais, onde nascemos, e em geral todo acontecimento que não presenciamos pessoalmente. 

Recorde-se que o saber apoiado no testemunho de outro é o mais freqüente na vida diária; até nas mesmas ciências chamadas experimentais, se aceitam verdades por um ato de confiança no testemunho ou autoridade de outros investigadores.

3.1.2 A fé é uma virtude sobrenatural O Concílio Vaticano I define a fé como: "uma virtude sobrenatural pela que, com a inspiração e ajuda da graça de Deus, acreditam ser verdadeiro o que pelo foi revelado; não pela intrínseca verdade das coisas recebidas pela luz natural da razão, mas sim pela autoridade do mesmo Deus que revela, o qual não pode enganar-se, nem nos enganar" (Conc. Vaticano I, Const. dogm. DeiFilius, C. 3, Dz. 1789).

Elementos de definição: 

a) A fé é uma virtude sobrenatural, pois transcende toda ordem natural ou humana, já que Deus, como vimos, fala-nos através da Revelação, que é sobrenatural. A fé, resposta a essa Revelação, deve ser também sobrenatural. 

b) Com ajuda da graça, pois esta virtude supera as capacidades puramente naturais do homem. 

c) Acreditam ser verdadeiro o revelado; aceitamos essas verdades que constituem o que se chama objeto da fé, quer dizer, o conjunto de todos ensinamentos divinos. 

d) Não acreditam pela intrínseca verdade das coisas, pois essa verdade não a captamos com nossa mente em toda sua profundidade, toda vez que transbordam as capacidades do intelecto criado. 

e) Acreditam pela autoridade de Deus, que merece a mais plena confiança, por cima de qualquer outra testemunha qualificada ou a somas de todos eles: Deus sendo imensamente sábio, não pode se enganar; e sendo imensamente santo, não pode nos enganar. A autoridade de Deus é o motivo da fé.

3.1.3 Diversas espécies de fé 
5. 

Devemos distinguir entre fé divina e fé católica. 

a) Fé divina. Tem lugar quando a verdade que se crê foi revelada Por Deus, mas não foi definida pela Igreja. Por exemplo, a infalibilidade do Papa, antes do Concílio Vaticano I.

b) Fé católica. Tem lugar quando a verdade foi revelada por Deus e definida solenemente pela Igreja. Por exemplo a infalibilidade do Papa, depois do Concílio Vaticano I. 

Na fé devemos distinguir duas coisas: o hábito (virtude da fé) que nos infunde no batismo; e o ato de fé que se encontra no assentimento que dá nosso entendimento à verdade revelada.

Assim, por exemplo, ao dizer "Acredito em Deus" faço um ato de fé que atualiza o hábito infuso da fé. 

Convém observar que os protestantes têm uma idéia erronea sobre a fé, pois para eles a fé não é o assentimento de nossa mente a não ser a confiança de que os méritos de Cristo nos sejam aplicados. Confundem pois a fé com a esperança.

3.2. - CARÁTER RAZOÁVEL DA FÉ

A fé é perfeitamente racional, tanto no motivo, como no modo de nos induzir a acreditar. 

a) A fé é racional no motivo. Na realidade, para acreditar em um homem lhe exigimos: 1) ciência, isto é, que saiba o que diz; 2) veracidade, que tenha a retidão necessária para não nos enganar. 

Pois bem estas duas condições que exigimos no homem as encontramos sempre em Deus e em um grau muito superior. Pois Deus jamais poderá enganar-se, nem nos enganar. 

b) A fé é também racional no modo. Em efeito, a fé não nos obriga a acreditar as verdades reveladas, a não ser depois de estar seguros de que Deus na verdade as revelou. 
Se acreditássemos uma verdade como revelada Por Deus, sem ter segurança de que na verdade foi Deus quem a revelou, nossa fé não teria fundamento racional. 
Por isso Deus, antes de nos obrigar a acreditar, prova-nos mediante o milagre e a profecia que é O quem na verdade revelou.

3.3 - MOTIVOS DE CREDIBILIDADE 
6. 

Chamam-se motivos de credibilidade aos argumentos que provam a origem divina da Revelação, chamam-se motivos de credibilidade, porque fazem-na crivel ou aceitável que a Revelação na verdade venha de Deus (cfr. Conc. Vaticano I, Const. dogm. DeiFilius, C. 3, Dz. 1790). 

Com efeito, sendo o milagre e a profecia obra exclusivos de Deus, quando existem em favor de uma doutrina, provam com evidência que ela vem de Deus. De outra sorte Deus mesmo nos induzira ao engano. 

Os motivos de credibilidade são indispensáveis, porque Deus não pode obrigar ao homem a acreditar as verdades da fé, sem lhe haver provado primeiro que O na verdade as revelou. 

Os principais motivos de credibilidade são o milagre e a profecia, pois como só Deus pode efetuá-los, quando se apresentam em comprovação de uma doutrina, provam com evidência que esta vem de Deus. 

Há também outros dois motivos que nos movem a aceitar como divina, a revelação: 

a) A sabedoria excelente da doutrina revelada que a faz imensamente superior a todas as invenções humanas; 

b) Sua eminente santidade e sua eficácia para levantar o homem de suas fraquezas e enganos. 

Diferencia entre os motivos de credibilidade e o motivo de fé: 

1 Os motivos de credibilidade são múltiplos (milagre, profecia, etc.); o motivo da fé é único: a autoridade de Deus. 

2 Os motivos de credibilidade são anteriores ao ato de fé; o motivo da fé forma parte do mesmo. Assim, não acredito (ato de fé), a não ser depois de ter certeza pelos milagres e pelas profecias que Deus revelou. 

3 - Os motivos de credibilidade não obram em todos com a mesma força; a uns movem mais os milagres; a outros as profecias, a outros a sabedoria e santidade da religião cristã para admitir a divindade da revelação. Pelo contrário, o motivo de fé obra em todos com a mesma eficácia; cada um dos cristãos se diz: Deus revelou, logo devo acreditar. 
Os motivos de credibilidade os conhecem por conduto da razão. Assim a razão serve de base e fundamento a nossa fé.

3.4 - O ATO DE FÉ 
7. 

O ato de fé é um ato de nosso entendimento, sob o impulso de nossa vontade, movida pela graça. 

1 É um ato do entendimento, porque a fé nos ensina verdades, e a verdade é o objeto do entendimento. 

2 Sob o impulso da vontade, porque as verdades da fé não se apresentam com evidencia ao entendimento; e assim este não as admite se a vontade não o move a acreditar. 

É certo que os motivos de credibilidade (milagres) obram em nossa vontade para movê-la a acreditar, mas sem lhe fazer violência, nem forçar sua liberdade. 

Deus não quis dar uma evidência absoluta às provas da revelação, para conservar o mérito de fé. Por isso lhes infundiu luz suficiente para afugentar toda dúvida prudente nos entendimentos bem dispostos; mas não lhes infundiu uma evidência que obrigasse a acreditar nos entendimentos rebeldes. 

Por isso para acreditar se necessita uma vontade reta. Por isso também quem não vive a virtude da Santa pureza, e se deixa levar pelo orgulho pode ser induzido facilmente à incredulidade. Assim como o animal imundo suja a água pura que bebe, assim uma vontade viciada pela sensualidade e o orgulho se suja ela mesma a fonte da fé, limpa para outros.

3 Movida pela graça. A vontade aceita a verdade de fé movida pela graça, pois a fé é uma virtude sobrenatural que transborda com amplitude o âmbito das forças puramente naturais do homem. 

Podemos dizer, portanto, sem esquecer a ajuda da graça, que a inteligência e a vontade intervêm do seguinte modo: 

1.º  julgamento de credibilidade: é razoável acreditar 

2 julgamento da credentidade: devo acreditar 

3 decisão da vontade: quero acreditar 

4 assentimento do intelecto: acredito

3.5 - RELAÇÕES ENTRE A CIÊNCIA E A FÉ 

a) Não pode haver oposição entre elas 

Entre a ciência e a fé não pode haver oposição porque elas vêm de Deus; e se houvesse oposição entre elas, Deus se contradiria a si mesmo. 

Precisando os termos, devemos dizer que não pode haver contradição entre uma verdade científica e uma verdade religiosa. 

1) Por verdade científica se entende uma verdade comprovada com absoluta certeza pela ciência; não uma simples hipótese ou teoria de um sábio, por autorizado que seja. 

2) Por verdade religiosa se entende uma verdade proposta pela Igreja como obrigatória a nossa crença; não a opinião de um teólogo por autorizado que seja. 

Quando se adverte uma contradição entre a ciência e a fé, temos que julgar que se trata de uma contradição aparente, que existe: 

1 - Ou entre uma opinião teológico e uma hipótese científica, e neste caso nem a primeira é verdade religiosa, nem a segunda verdade científica. 

2 - Ou entre uma verdade religiosa e uma hipótese científica não demonstrada, por exemplo, entre o dogma da criação e a hipótese transformista que ensina que o homem vem do macaco. 

3 - Ou por fim, entre uma opinião teológica e uma verdade científica demonstrada, por exemplo, entre a opinião de alguns teólogos que interpretavam os dias da criação como dias naturais de vinte e quatro horas, e a verdade científica de que o mundo necessitou longos séculos para sua formação. 

Mas podemos ter certeza absoluta de que nunca uma verdade de fé estará em contradição real com uma verdade científica, porque a verdade não pode contradizer-se a si mesmo. 

O Concílio Vaticano I afirma que "embora a fé esteja por cima da razão, entretanto, nenhuma verdadeira dissensão pode jamais dar-se entre a fé e a razão, como quero que o mesmo Deus que revela os mistérios e infunde a fé, pôs dentro da alma humana a luz da razão, e Deus não pode negar-se a si mesmo, nem a verdade contradizer jamais à verdade" (Conc. Vaticano I, Const. dogm. DeiFilius, C. 4, Dz. 1,797).

b) Ajudam-se mutuamente 

A fé não é inimiga da ciência nem lhe teme à ciência, a não ser à ignorância. É uma grande verdade o que disse um pensador: "Se a pouca ciência se separar de Deus alguma vez, a muita ciência conduz sempre a Ele" (Bacon). 

1 - A fé é útil à ciência, especialmente em três sentidos: a) dá-lhe, firmeza, fazendo-a conhecer com certeza muitas verdades de capital importância, que a razão só conhece de modo incerto. b) Preserva-a de engano, impedindo de tomar por caminhos extraviados. c) Ilustra-a, lhe manifestando muitas verdades que a razão só nunca pudesse conhecer. A fé é como um poderoso telescópio que aumenta poderosamente o alcance da razão. 

2 A ciência ajuda à fé: a) assim que a razão é a que demonstra os motivos de credibilidade. 

b) E as ciências são auxiliares eficazes e indispensáveis no estudo das verdades da fé.
É interessante ressaltar o chamado que faz a Conferência de Povoa: "Aos cientistas, técnicos e ferreiros da sociedade tecnológica, para que respire o espírito científico com amor à verdade ( ); para que evitem os efeitos negativos de uma sociedade hedonista e a tentação tecnocrática ( ) Exortamos a todos os pensadores conscientes do valor da sabedoria ( ) a que tenham em conta a grande afirmação da Gaudium et Spes: "O destino futuro do mundo corre perigo se não se formarem homens mais instruídos nesta sabedoria (N. 15)" (Povoa, 1979, N. 1240).
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