segunda-feira, 17 de junho de 2013

DEUS PODE PECAR? CALVINO, PELO MENOS INDIRETAMENTE, DIZ QUE SIM

Retrato de Calvino e de seus principais discípulos - 


... ensinando Calvino que Deus é o autor de todos os pecados, rebelou-se assim contra todos os partidários da Reforma. “Esta opinião, dizem os luteranos da Alemanha, deve ser vista com horror e abominação. É uma fúria de estoicismo, fatal aos costumes, monstruoso e blasfemo”. “Este erro calvinista, escreve Conrado Schlusselburg, é terrivelmente injurioso a Deus, e entre todos os erros, não há um que seja tão funesto para a raça humana, pois segundo esta teologia calvinista, Deus seria o mais injusto dos tiranos; e não mais o demônio, senão o próprio Deus seria o pai da mentira” 




Estudemos, Calvino, e seus principais discípulos.


Jehan Cauvin (João Calvino), conhecido apenas por Calvino, nasceu na comuna francesa de Noyon, de um cobrador de impostos chamado Gérard Cauvin, que com o tempo chegou a ser tabelião e promotor fiscal do bispado desta cidade (então sob jurisdição do Monseigneur Charles de Hangest). Por meio dos abusos que eram mui frequentes quando os reis ou os povos se intrometiam nos negócios eclesiásticos, Calvino recebeu, com apenas doze anos de idade, uma capelania na igreja de Noyon, e pouco depois a cura de almas (paróquia) de Pont-l’Évêque, antes de ser ordenado sacerdote. Desempenhando o curado (ou seja, o serviço de pároco), este infeliz foi acusado do crime infame de sodomia (Prática sexual em que há penetração do ânus com o pênis).

DEPRAVADO

Eis aqui como se refere o inglês Stalepton a este memorável acontecimento: “Existem, todavia (em 1590, ou seja, mais de vinte anos depois da morte de Calvino), em Noyon, cidade da Picardia, os registros judiciais em que se lê que, condenado POR SODOMIA, foi marcado nas costas com ferro quente, e isto por graça especial do bispo e dos magistrados, pois a fogueira era a pena comum destes delitos, e que em seguida foi ignominiosamente arremessado da cidade. As pessoas mais honradas de sua família, algumas das quais, contudo, ainda vivas, não conseguiram fazer que esta nota infame desaparecesse dos arquivos públicos” [1].


Jérôme-Hermès Bolsec assegura haver visto as provas autênticas deste crime execrável nas mãos de Philibert Berthelier, secretário do Conselho de Genebra, que foi enviado pelos magistrados desta cidade à Noyon para que conseguisse informações autênticas.

Théodore de Bèze - Discípulo de Calvino
Na Vie de Jean Calvin, obra publicada em Paris no ano de 1577 e escrita por Théodore de Bèze, contemporâneo e discípulo de Calvino, relata-se que em Genebra teve também seu Adônis (companheiro homossexual), o qual lhe abandonou, fugindo depois de havê-lo roubado [2].

Estes fatos são tão conhecidos por todos, que quando o P. Campiano afirmou notoriamente na Inglaterra que o chefe dos calvinistas havia sido marcado com a flor de lis, o mesmo Wittakers, antagonista do P. Campiano, longe de negá-lo, respondeu-lhe com uma indigna e insultuosa comparação, dizendo que, se Calvino havia sido estigmatizado, também o foram São Paulo e outros muitos [3].

Calvino, sendo obrigado a sair da França, foi para a Alemanha, e em Basileia foi apresentado por Martin Butzer a Erasmo, o qual, depois de haver tido com ele, disse a Butzer: “Vejo levantar-se uma grande peste na Igreja contra a Igreja” (Video magnani pestem oriri in Ecclesia contra Ecclesiam) [4].

A doutrina de Calvino sobre a Trindade causou tamanha indignação em Stancar que, apesar de ser um de seus partidários, chegou a dirigir-lhe esta apóstrofe: “Que demônio conduziu-te, oh Calvino!, a declamar como Arius contra o Filho de Deus? Não és outro que o Anticristo do Setentrião, a quem tens tido a imprudência de adorar (...) Priva-te, leitorcristão, e principalmente vós, ministros da palavra, priva-os dos livros de Calvino (...) porque contêm uma doutrina ímpia: as blasfêmias do arianismo. Parece como que o espírito de Miguel Servet [que negava a Trindade e se opunha ao batismo infantil], escapando da fogueira, passou pela transmigração platônica inteiro a Calvino” [5].


DEUS - AUTOR DE TODOS OS PECADOS

E se deste modo julgou a Calvino e escreveu sobre ele um de seus adeptos, o que não pensaram e disseram seus antagonistas, os luteranos? De fato, ensinando Calvino que Deus é o autor de todos os pecados, rebelou-se assim contra todos os partidários da Reforma.

“Esta opinião, dizem os luteranos da Alemanha, deve ser vista com horror e abominação. É uma fúria de estoicismo, fatal aos costumes, monstruoso e blasfemo”.

“Este erro calvinista, escreve Conrado Schlusselburg, é terrivelmente injurioso a Deus, e entre todos os erros, não há um que seja tão funesto para a raça humana, pois segundo esta teologia calvinista, Deus seria o mais injusto dos tiranos; e não mais o demônio, senão o próprio Deus seria o pai da mentira” [6].

Este mesmo autor, que era superintendente-chefe da Igreja luterana, nos três livros que publicou contra a teologia de Calvino [7], não fala dos calvinistas sem chamar-lhes de infiéis, ímpios, blasfemos, charlatões, hereges, incrédulos, gente cega e vertigionosa, gente sem vergonha nem pudor, turbulentos e perturbadores ministros de Satanás.

“Não somente, acrescenta Tilemann Heshusius, transformam Deus em demônio, coisa que só de pensar horroriza, mas aniquilam o mérito de Jesus Cristo até o ponto de fazerem-se dignos de serem relegados ao mais profundo do inferno”.

Não faltaram calvinistas que se opuseram a estes ensinamentos de seu Mestre. Heinrich Bullinger, entre outros, bradou da cátedra contra as abomináveis doutrinas de seu chefe, e demonstrou sua fraude com testemunhos dos Escritos dos Padres e de toda a Igreja. “Este dogma, disse, está evidentemente provado pela Escritura, ensinado desde os tempos apostólicos, a saber: que o autor do mal e a causa do pecado não é Deus, mas nossa vontade corrompida, nossa concupiscência e o diabo, que a move, a excita e a inflama”.

É justo, antes de continuar, fazer aos que ainda seguem as doutrinas de Calvino – sim, existem! –, e de certo modo extendendo-se a todos os protestantes – que, certamente, enxergar-se-ão nas palavras abaixo –, uma simples reflexão extraída da obra eruditíssima de que foi retirado o documento citado acima:


BULLINGER


Pobre Bullinger! Que responderias a certos protestantes, que não se atrevendo a defender seus mestres, dizem a seu modo: Eu não reconheço nem Padres, nem Igreja, mas somente a Escritura Sagrada, tal como me mostrou-a o Espírito Santo. A Igreja inteira, e muito menos a Igreja romana, não podem subsistir na presença da Bíblia. Pobre Bullinger! Tu caíste, como um imbecil, nas redes do tradicionalismo. Não são tão lerdos estes outros protestantes: Ao diabo, dizem, a tradição. Não admitimos mais que a Bíblia, e esta interpretada por cada um segundo o Espírito: desta forma, enfrentaremos tudo” [8].

Coletando novamente o fio dos testemunhos dos calvinistas contra seu mestre, apresenta-se o famoso Castiglione, dirigindo as seguintes palavras a Calvino: 


“Não pode ser menos falso o Deus que tarda pela misericórdia e mostra-se pronto para a cólera; o que criou a maior parte dos homens para perdê-los, e lhes predestinou não só à condenação, mas à causa mesma da condenação. Haverá este Deus, por acaso, decretado e desejado desde a eternidade que, atualmente, o pecado deva ser necessário ao homem, até o ponto que os adultérios, os roubos e os homicídios não sejam cometidos senão por instigação sua? Não se deduz outra coisa de suas doutrinas, pois, segundo elas, Deus é quem infunde nos homens afetos maus e desonestos, e os fortalece, já não por mera permissão, mas com tal eficácia, que o ímpio executa a obra de Deus e não a sua própria; e por último, ele, e não Satanás, é o pai da mentira” [9].

Porém, ao invés de Calvino negar os ensinamentos que lhe atribui aquele heresiarca, vejamos como responde às suas acusações: “Jamais homem algum levou tão longe o orgulho, a perfídia e a inumanidade. O que não te enxerga como um impostor e bufão de cínica imprudência, disposto a ladrar contra tudo o que é santo e bom, carece de sentido comum”. E termina com esta bênção, digna de um homem de sua laia: “Que o Deus Satanás te abençoe. Assim seja. Genebra, 1558”.

Não diferente é o juízo que os anglicanos daquele tempo formaram deste miserável. No ano de 1558, apareceu em Londres um escrito composto, ou ao menos aprovado, pelos bispos anglicanos contra a seita calvinista dos puritanos. Calvino e Théodore de Bèze aparecem nele como homens intolerantes e orgulhosos, que tendo-se rebelado contra seu legítimo príncipe, haviam criado seu Evangelho e pretendiam dominar a Igreja com uma tirania muito mais odiosa que a atribuída frequentemente aos romanos Pontífices. “Protestamos, acrescentavam, que entre todos os textos da Escritura citados por Calvino e seus discípulos em favor da Igreja de Genebra e contra a da Inglaterra, não há sequer um que não tenha sido vergado a um sentido contrario àquele da Igreja e dos Padres desde os tempos apostólicos; e isto de tal maneira, que se Santo Agostinho, Santo Ambrósio, São Jerônimo, São Crisóstomo, etc., voltassem à vida e vissem o modo com que é citada a Escritura pelos doutores genebrinos, admirar-se-iam de encontrar no mundo um homem de audácia tão desenfreada, que sem o mais leve ardor de verdade, abusa da palavra de Deus, de si mesmo, de seus leitores e do universo inteiro”. O citado escrito continua declarando que a impura fonte genebrina espalhou na Inglaterra uma doutrina envenenada, sediciosa e catilinária, e acrescenta: “Feliz mil vezes, feliz nossa ilha, sem que nenhum inglês nem escocês haja posto o pé em Genebra, nem tenha conhecido a um sequer destes doutores genebrinos”.
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Notas 
[1] In promptuario cathol. Sabbato Hebdom., III. Quadrag., folio 749.
[2] Vi. de J. Cal., II, fól. 126.
[3] Campian., lição III, 1531.
[4] Florim., Hist., pág. 889.
[5] Stancharus, de Mediat. in Calvin. institut., fól. 3.
[6] Conr. Schlusselb., Calv. Teol., fól. 46.
[7] Francfort, 1592.
[8] Le Ministre protest. aux preses avec lui meme. Lyon, 1836, pág. 181.
[9] In. Libr. praedest. ad Calv. 

* Traduções, adaptação linguística e conclusões por: Carlos Wolkartt
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Retrato de Calvino e de seus principais discípulos


Não faltaram em Genebra, anos após a morte de Calvino e não muito tempo distantes de nós, protestantes calvinistas que julgavam severamente Calvino e suas obras. Tal é, entre outros, o senhor Duceman, chanceler do Estado, que em 1864 publicou um opúsculo provando:

1º - Que Calvino, longe de iniciar uma era de liberdade, de paz, de fraternidade, de sabedoria e de caridade cristã em Genebra, não fez outra coisa que inaugurar e plantar no solo da república um regime civil, político e religioso, o mais selvagem e feroz, um governo delator, suspicaz, invejoso, usurpador e sanguinário, que no tempo de Calvino, e ainda muito depois, não deixou de exercer atos do mais cruel e brutal despotismo. O autor chega a esta conclusão apresentando provas com exatidão matemática, e citando milhares de homens e mulheres a quem o vingativo e impiedoso reformador mandava prender, banir, multar, matar e queimar quando tinham a desgraça de desagradá-lo no gerenciamento dos negócios ou nas controvérsias religiosas.

2º - Que Calvino, não tardando em pôr-se abertamente em contradição com o princípio fundamental do protestantismo: Não há outra autoridade na Igreja que a Bíblia, substituiu a autoridade dos bispos e a do Papa segundo sua própria vontade, arbitrária, absoluta e opressora, até o ponto que todos os negócios de ordem civil ou religiosa, e toda a pessoa, desde o mais alto escalão da república até o mais humilde pastor da aldeia, deviam submeter-se a seu férreo jugo. O autor apresenta muitíssimos fatos para provar que o grande e pequeno Conselho da República, o Consistório, a venerável Companhia, os anciãos, as leis e os tribunais tinham que curvar-se sempre à vontade do violento e impetuoso reformador.

3º - Que Calvino, em sua orgulhosa impiedade, chegou ao ponto de pretender identificar sua causa e sua vontade caprichosa com a causa e a vontade de Deus, afirmando que Deus quer o que quer Calvino.

4º - Que Calvino, à custa de infrações, punições e sentenças de morte, conseguiu aniquilar o partido nacional de Genebra e se tornar juiz da situação, exercendo o poder por meio de estrangeiros vindos de todas as partes para porem-se cegamente a seu serviço.

5º - Que os pregadores chamados e autorizados por Calvino, e até o próprio Calvino, que juntamente com seus falsos profetas não cessavam de declamar contra a imortalidade e os abusos do clero romano, tiveram desde os princípios da Reforma costumes tão depravados, que causariam repugnância à plebe das mais licenciosas cidades. Daqui o provérbio de que ninguém se converte ao protestantismo para tornar-se melhor.

E de fato, não se podia esperar outros frutos de uma doutrina que sustenta: Que as boas obras são inúteis; que é impossível a virtude cristã e meritória; que o homem carece do livre arbítrio; que obra o mal por necessidade; que está fatalmente predestinado ao inferno, sem consideração às suas obras boas ou más, etc., etc.

6º - Que as declamações de Calvino e de seus partidários tiveram por efeito imediato precipitar a Genebra em um abismo tão profundo de desregramento e confusão, que os ódios, as vinganças, as sedições e todo o gênero de revoltas tornaram-se comuns no país.

Tais são, em resumo, as consequências que deduz este autor protestante na obra que publicou por ocasião do aniversário da morte de Calvino.

A estes acontecimentos biográficos, que muitos protestantes contemporâneos e adeptos a Calvino nos deixaram, acrescentamos um fato notabilíssimo concernente aos seus milagres, contado por seus próprios partidários [1]. Provocado e impelido pelos católicos a provar sua missão por meio de milagres, como fizeram os apóstolos, Calvino resolveu responder imprudentemente a este desafio tentando ressuscitar um morto. Um homem chamado Bruleus, que havia abandonado seu país natal para estabelecer-se em Genebra e que, encontrando-se em grande miséria, desejava conciliar-se à benevolência de Calvino e obter por este meio algumas das esmolas que o reformador distribuía, proporcionou uma ocasião propícia para que o prodigioso milagre fosse realizado. Calvino, desde então, prometeu-lhe ajuda, sob a condição de que ele e sua mulher se submetessem a servi-lo de instrumento em um assunto que exigia demasiada prudência e confiança.

Bruleus, vendo-se obrigado pela miséria, não havendo outra saída, aceitou estas condições, e para agradar o reformador, teve de fingir-se enfermo. Os ministros lhe encomendaram às orações e à caridade dos fiéis, porém a enfermidade foi-se agravando, e Bruleus desempenhou maravilhosamente seu papel, fingindo-se de morto. Avisado sigilosamente, Calvino saiu com o pretexto de ir passear, acompanhado de um grande número de amigos, que seriam as testemunhas do milagre. Dirigiu-se então, aparentemente de forma casual, até o local onde jazia o fingido defunto.

Os gritos e lamentos de uma mulher, que com o maior desespero arrancava os cabelos, chamou a atenção de Calvino, que lhe dirige algumas palavras e depois caminha com ela à casa, onde encontra Bruleus fingindo-se de morto. Calvino, com todo o seu séquito, cai de joelhos ante o leito de morte. Roga a Deus em voz alta que se digne fazer ostentação de seu poder, devolvendo a vida àquele homem, e que manifestasse sua glória aos olhos de todo o povo, provando com este prodígio a missão de reformar sua Igreja, que havia confiado a Calvino.

Concluída a oração, levanta-se o pretendido taumaturgo com ar majestoso, aproxima-se do morto e, tomando uma de suas mãos, lhe ordena em nome de Deus que se levante. Repete esta intimação por três vezes, elevando cada vez mais a voz; porém o morto não respondia. Sua mulher se aproxima, e lhe dá fortes sacudidas, em vão: era frio cadáver!

Foi então que a viúva começou a derramar verdadeiras lágrimas e a romper-se em lamentos não fingidos, lançando contra Calvino uma torrente de maldições, e narrando publicamente a miserável farsa que havia tentado representar.

Os covardes aduladores de Calvino, acrescenta Duceman, negam ousadamente este fato, que já está, contudo, suficientemente provado, pois, independente de muitas outras razões, a confissão das testemunhas que o presenciaram, e sobretudo da própria mulher que teve um papel ativo nele, não deixa brecha a nenhum tipo de dúvida.

Eis aí os milagres que os hereges realizam, como já em tempos atrás observava Tertuliano escrevendo a este propósito: “Volo igitur et virtutes eorum proferri. Nisi quod agnosco máximam virtutem eorum qua apostolos in perversum aemulantur. llli enim de mortuis vivos faciebant, hi de vivis mortuos faciunt”. (É preciso dizer algo sobre os prodígios obrados por eles [pelos hereges]. Conheço a grande virtude da qual se dizem dotados, e na qual se esforçam para imitar os apóstolos, enquanto fazem todo o contrário, pois estes davam vida aos mortos; mas eles dão morte aos vivos) [2]. Tão verdadeiras são estas palavras, que os hereges de todos os tempos são sempre os mesmos.

Permita-me, com paciência (!), insistir e acrescentar algo mais sobre Calvino. Posto que tantas condolências inspiraram muitos dos sectários da Reforma – e inspiram até hoje! –, não podemos nem devemos omitir o término de sua carreira mortal, conforme nos narra seu discípulo Giovanni Harem, testemunha ocular: “Calvino, disse, entregando-se ao desespero nos últimos dias de sua vida, morreu devorado pelos vermes e consumido por uma dessas ignominiosas e repugnantes enfermidades com que Deus geralmente castiga aos que se rebelam contra ele. Ao expressar-me deste modo, tenho a segurança de que nada pode desmentir-me, pois eu estava presente e vi com meus próprios olhos seu trágico e funesto fim”.

Eis aqui as palavras originais deste escrito:

“Calvinus in desperatione finiens vitam obiit turpissimo et faedissimo morbo, quem Deus rebellibus comminatus est, prius excrutiatus et consumptus. Quod ego verissime attestari audeo, qui funestum et tragicum illius exitum his meis oculis praesens aspexi” [3].

Não menos sombrias são as cores com que Conrado Schlusselburg retrata esta morte desastrosa: “Deus, disse, até neste mundo manifestou seu juízo sobre Calvino, visitando-o com a vara de seu furor e castigando-o com terrível rigor na hora de sua funesta morte, pois lhe feriu com sua mão poderosa de tal modo, que desesperando este herege de sua própria salvação, invocando aos demônios, jurando, maldizendo e blasfemando, exalou miseravelmente seu espírito maligno. Enquanto isso, manavam asquerosos vermes de uma apostema ou úlcera tão hedionda, que nenhum dos presentes podia suportar seu fedor”.

Eis aqui, também, as palavras originais deste escrito:

“Deus etiam in hoc saecuIo judicium suum in Calvinum patefecit, quem in virga furoris visitavit atque horribiliter punivit ante mortis infelicis horam. Deus enin manu sua potenti adeo hunc haereticum percussit, ut, desperata salute, daemonibus invocatis, jurans, execrans et blasphemans, misserrime animam malignam exhalavit. Vermibus circa pudenda in aposthemate seu ulcere faestissimo crescentibus, ita ut nullus assistentium factorem amplius ferre posset” [4].

Este artigo jamais terminará se continuarmos falando de Calvino. Digamos, portanto, alguma coisa de seu discípulo favorito, Théodore de Bèze, sem recorrermos a testemunhos de escritos católicos, mas dos próprios protestantes.

THEODORE DE BÈZE

Perguntam os luteranos: por que causa Bèze não disse uma só palavra em sua Vie de Jean Calvin das flores de lis com que foi marcado ou selado seu herói? Ao qual respondem, que havendo merecido o panegirista (Bèze) ser marcado com o mesmo selo pelo mesmo delito e pela mesma heresia de seu mestre, tinha, portanto, infamado a si mesmo.

Daqui a aversão dos calvinistas pela flor de lis, até o ponto de suprimi-la em todas as pinturas, de arrancá-la da terra em que brota e de não desejá-la crescer em seus jardins [5].

Eis aqui, ademais, o retrato deste panegirista de Calvino e herdeiro de sua supremacia em Genebra, deixado pelo luterano Tilemann Heshusius: “Quem não se admira da incrível audácia deste monstro, cuja vida vergonhosa e infame é conhecida em toda a França por seus epigramas obscenos e cínicos? No entanto, ao ouvi-lo, crerias que era um santo, um Jó, um dos anacoretas do deserto, e mais digno que São Paulo ou São João. Tanto é que se esforça em proclamar por todas as partes a historieta de seu exílio, de seus trabalhos, de sua pureza e da admirável santidade de sua vida, como aqueles de quem dizia Juvenal [Decimus Iunius Iuvenalis]: Qui curios simulant, et bacchanalia vivunt” [6].

“Bèze, dizia outro escritor, é o protótipo daqueles homens ignorantes e grosseiros, que, na falta de razões e argumentos, recorrem às injúrias, ou daqueles hereges que não têm outro meio de defesa que os insultos... Este homem imundo, com todo artifício e impiedade, escreve suas satíricas blasfêmias nada mais nada menos como se fosse um demônio encarnado”.

O mesmo autor acrescenta que, depois de haver dedicado vinte e oito anos a ler mais de duzentas e vinte publicações calvinistas, em nenhuma encontrou tantas injúrias e blasfêmias como nos escritos desta fera... e que se alguém o pusesse em dúvida, bastava apresentar seus famosos diálogos contra o doutor Heshusius, os quais não parecem escritos por um homem, mas pelo próprio Belzebu em pessoa.

“Eu ficaria horrorizado, continua, em descrever as obscenas blasfêmias que este ser impuro e ateu vomitou, com uma mistura nauseante de impiedade e de bufonearia, contra um dos assuntos mais dignos de veneração. Sem dúvida, havia mergulhado sua pluma [objeto usado para escrever] na tinta do inferno”.

Alguém dirá, talvez, que os luteranos não merecem crédito por serem eles antagonistas dos huguenotes (calvinistas). No entanto, não dissemos coisa alguma que não é atestada pelos próprios calvinistas. Estes exaltavam Bèze como escritor garboso e elegante; porém, quanto a seus costumes, o apresentavam como um dos homens mais malvados de seu tempo: libertino, ímpio e profanador das coisas mais santas, que zomba delas com escárnio, atitude própria de um ateu; cruel e sanguinário, está sempre disposto a inspirar os mais negros e execráveis atentados; impudente e dissoluto, está submergido na lama das mais degradantes paixões, como aparece em Les Juvenilia, e principalmente naquele epigrama em que, aludindo à sua favorita Candida e à sua amante, tem o cinismo não só de acusar-se, mas até de vangloriar-se do mais abominável delito.

Para driblar as pesquisas do Parlamento e escapar da fogueira, vendeu o priorado de que foi investido, e outro pequeno benefício que possuía por resignação de seu tio Nicolas de Bèze, e fugiu para Genebra em companhia de sua Candida, que não era outra que uma mulher de um alfaiate de Paris, chamada Claudia, e que, a pedido de Bèze, casou-se com ele vivendo ainda com seu esposo.

E deste modo iniciou sua reforma: com um ADULTÉRIO PERMANENTE, que o fazia digno de morte, segundo todas as leis divinas e humanas [7].

PHILIPP MELANCHTHON

Com pouco a ser dito de Philipp Melanchthon, façamos seu breve retrato. Luterano primeiro, depois zwingliano e mais tarde, calvinista; perplexo e vacilante exteriormente, porém sempre incrédulo em seu coração, era conhecido vulgarmente pelo apelido de Veleta da Alemanha. Devido a esta perpétua inconstância, seus próprios partidários lhe recusaram as honras do funeral, e foi-lhe aplicado oportunamente este verso: Nunc me Ponthus habet, jactantque in littora vente [8].

Acesse o Artigo Original
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Notas

[1] Bolsec, Mem. hist. vit. Calv. – Lindanus, In Jubitat. – Alanus, Corpus, lib. VII, dialog.
[2] De praescript. haeret., cap. XXX.
[3] Giovanni Haren, segundo Pietro Cutzenio.
[4] Conr. Schlusselb. in Theol. Calv., lib. II, fól. 72.
[5] Ibid.
[6] Heshusius, vers. Florim., fól. 1048.
[7] Bolsec, Vit. Théod. Bèze.
[8] Le Ministre ecc., fól. 191.

* Traduções, adaptação linguística e conclusões por: Carlos Wolkartt

 
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