segunda-feira, 10 de julho de 2017

O PROTESTANTISMO: NEM SANTOS NEM MILAGRES

Toda a verdade
sobre o protestantismo evangélico



O Pe Leonel Franca nasceu em 7-1-1893, em São Gabriel, RS.

Ingressou na Companhia de Jesus em 12-11-1908.

Em 1912 foi estudar filosofia na Universidade Gregoriana, Roma, onde recebeu o título de Doutor em Teologia (1924).

Durante sua estadia na Cidade Eterna publicou “A Igreja, a Reforma e a Civilização” (1923).

Em 1928, fundou a Universidade Católica de Rio de Janeiro, da qual foi Reitor magnífico durante oito anos.

Rendeu sua alma a Deus em 3-9-1948.


Pe. Leonel Franca S.J.: “A Igreja, a Reforma e a Civilização”, Livro III, Capítulo III, 1. Igreja, Reforma e Moral:


A moral escrava dos apetites contraditórios


“O protestantismo foi o último galho lascado da árvore católica. Seus restos cobrem ainda larga parte da Europa setentrional. 

“Aos olhos de observadores superficiais apresenta ainda o viço de uma verdura luxuriante. Mas são apenas folhas. Flores e frutos já os não produz. 

“A mesma infecundidade moral que esterilizou as outras revoltas religiosas feriu também a do monge saxônio. 

“Procurai os santos do protestantismo em quatro séculos de existência, inquiri do heroísmo dos seus filhos, investigai-lhes os milagres que são sigilo da divindade; não encontrareis, sob estes títulos, senão páginas em branco. 

“Homens honestos, virtudes cristãs que não transcendem os limites da mediocridade, é o mais que nos podem oferecer os seus anais. 

“A graça, nos segredos insondáveis da sua ação sobrenatural, pode ainda fecundar a boa fé e a intenção reta dos extraviados. 

“Mas o segredo do heroísmo cristão, esse perdeu-se para as almas de escol, enquanto as grandes massas, destruídas as barreiras preservadoras, se precipitaram, sob a impetuosidade torrencial das paixões, nos grandes excessos, que cedo ou tarde acarretam a completa, dissolução da vida moral e religiosa.

“É esta decadência do protestantismo que ora nos cumpre esboçar. Distinguiremos no nosso estudo duas questões: a questão de direito e a questão de fato. 

Martinho Lutero (1483 — 1546). History of the World, 1902.
“Analisando abstratamente os princípios, provaremos primeiro a incapacidade profunda e insanável em que se acha o protestantismo de promover a grandeza moral dos que o abraçaram e confirmaremos, em seguida, com o exame dos fatos, a verdade das nossas conclusões teóricas.

“Na ordem natural e na ordem sobrenatural a Reforma protestante golpeou de morte os órgãos vitais da moralidade humana e da moralidade cristã.

“Na ordem natural, são dois os elementos fundamentais da grandeza de caráter: princípios sólidos e imutáveis a iluminar as alturas da inteligência, força e constância de querer a fortificar as energias da liberdade. 

“Sem a firmeza das verdades eternas que lhe fixam o ideal na corrente movediça das coisas que passam, o homem vive, ou, melhor, flutua à mercê dos acontecimentos. 

“Cada capricho que lhe cruza pelo espírito, inspira-lhe uma resolução passageira, cada paixão, que lhe estua na alma, imprime uma orientação efêmera à sua atividade. 

“No conflito dos apetites contraditórios nenhuma ordem, nenhuma unidade, nenhuma harmonia de tendências, nenhuma subordinação hierárquica de faculdades. é nesta hesitação vacilante acerca dos grandes princípios moderadores da atividade humana que devemos procurar a causa primeira da crise de caracteres de que adoece a nossa civilização. 

“Jouffroy: “Personne n'a du caractère dans ce temps et par une bonne raison, c'est que des deux éléments dont le caractère se compose, une volonté ferme et des principes arrêtés, le second manque et rend inutile le premier”.

Foi o protestantismo o primeiro a abalar nas almas a estabilidade das convicções.Perguntai ao protestante qual o princípio regulador da sua atividade moral.

– A Bíblia, responderá, a Bíblia, única regra dos costumes como norma única de fé. 

– Mas a Bíblia quem a interpreta? A razão individual. Se vos apraz, podereis ver no livro divino, com Lutero, a condenação da virgindade, a justificação da poligamia, a inutilidade das boas obras. A razão, pois, a razão subjetiva e mutável ao sabor das paixões, eis, em última análise, a regra de nosso operar.

“As massas, desvinculadas assim da submissão a uma autoridade superior e incapazes de deduzir pessoalmente do livro inspirado um código de moral, deixar-se-ão levar pela torrente avassaladora dos apetites desregrados.

“Os cultos, os intelectuais, vagando à mercê das variações da crítica racionalista, erigirão os próprios preconceitos em mandamentos étnicos, construirão uma moral “independente” e oscilante sobre a areia movediça dos sistemas filosóficos. 

Lutero, ex-frade agostiniano, tocando alaúde
junto a sua mulher Catarina, ex-freira, e filhos
“Para o jovem inebriado com os primeiros fumos da ciência, as regras aprendidas e praticadas na infância já não apresentam a solidez racional capaz de resistir aos embates críticos dos moderníssimos mestres do pensamento. 

“O homem maduro achar levianas e superficiais as conclusões assentadas nos fervores entusiastas da juventude. Ao velho experimentado e desiludido afigurar-se-ão inconsistentes e eivadas de orgulho as construções morais de sua virilidade.

“Destarte, de povo para povo, de época para época, de indivíduo para indivíduo, de idade para idade, os princípios morais variarão com a índole, com os caprichos da moda intelectual, com as paixões que agitam e diversificam as massas humanas no espaço e no tempo. 

“O protestantismo em quatro séculos de existência, como não logrou assentar uma confissão de fé que reunisse o sufrágio universal das inteligências, assim não conseguiu estabelecer um código de moral que se impusesse à submissão de todas as vontades.

“A sua moralidade furta-côr, o seu preceituário de mil fórmulas cambiantes, os seus mandamentos entregues à versatilidade interesseira do egoísmo, arvorado em norma suprema de ação, comprometeram irremediavelmente no domínio intelectual a eficácia regeneradora dos grandes e imutáveis princípios do cristianismo”. 
Citação: ”L'homme est toujours disposé à échapper à la morale, et il y échape quand cette morale n'est pas liée à une doctrine invariable”, De Broglie, Problèmes et conclusions de l'histoire des religions, Paris, 1886, pp. 115-116.




Lutero: golpe contra a vontade


Lutero: “a vontade do homem é semelhante a um jumento.
Deus opera em nós o mal”
Mais profundo ainda foi o golpe vibrado contra a vontade. O espírito, desenfreara-o Lutero com o livre exame; a liberdade, encadeou-a nos elos de um determinismo fatal. 

Esse homem, que uma crítica míope e pertinazmente hostil à Igreja proclamou o arauto das liberdades humanas, o emancipador dos povos livres, professa as teorias mais degradantes acerca do livre arbítrio, rebaixa a dignidade da nossa natureza ao nível do bruto, ao mecanismo inconsciente dos autômatos.

Para a Igreja católica o homem é livre. O pecado original vulnerou-lhe a prerrogativa divina, mas não a destruiu. 

Na revolta das paixões desencadeadas pela primeira prevaricação, na insurreição da concupiscência e dos apetites inferiores contra os ditames superiores do espírito, a vontade, debilitada sim, mas não aniquilada, conservou na sua decadência o cetro da realeza primitiva. 

Ela é ainda rainha; o homem é ainda senhor de seus atos e, pela liberdade, o artífice dos seus destinos. 

A graça eleva, fortifica, sobrenaturaliza a vontade, mas no segredo insondável de sua ação nas almas, respeita-lhe sempre a independência nativa. 

“A felicidade suprema da glória será conquista dos nossos esforços, prêmio das nossas virtudes, triunfo de nossa liberdade sobre o mal. 

As palavras de S. Paulo: gratia Dei mecum, resumem admiravelmente toda a economia da predestinação divina. Deus e eu: Deus, com a sua graça, eu, com a minha livre cooperação: eis os elementos essenciais e inseparáveis da nossa glorificação sobrenatural. Não se poderia melhor conciliar a gratuidade das generosidades divinas com a grandeza da dignidade humana.

Martinho Lutero pregando no Castelo de Wartburg, quadro de Hugo Vogel (1855-1934)
Martinho Lutero pregando no Castelo de Wartburg, quadro de Hugo Vogel (1855-1934)
À verdade destas doutrinas que elevam, opôs Lutero as degradações do erro que avilta. Aos estudos católicos sobre a liberdade contrapôs um livro desmoralizador e intitulou-o De servo arbítrio, do arbítrio escravo. 

Para envilecer o homem era mister começar por desengastar-lhe do diadema a mais preciosa das suas joias. Mas ouvi as suas próprias palavras: 

“A vontade do homem é semelhante a um jumento. Cavalga-o Deus? Ela vai aonde Deus a guia. Monta-lhe em cima o diabo? Ela vai aonde ele a conduz...

“Tudo se realiza segundo os decretos imutáveis de Deus. Deus opera em nós o mal e o bem. Tudo quanto fazemos, fazemo-lo não livremente, mas por pura necessidade”..

Fonte: De servo arbitrio ad Erasmum (1525) Weimar, XVIII, 635-709 ss.

“Foi o diabo quem introduziu na Igreja o nome de livre arbítrio”, Weimar, VII, 145.

Os discípulos fazem eco à palavra do mestre. Calvino: 
“Deus criou alguns para a condenação e morte eterna a fim de serem instrumentos de sua ira e exemplos da sua severidade, e a fim de que cheguem a esse destino... cega-os e endurece-os”.

“Se ele determinou salvar-nos, a seu tempo nos levará à salvação; se determinou condenar-nos em vão nos atormentaríamos para nos salvarmos”..

João Calvino (1509 — 1564).
João Calvino (1509 — 1564).
Fonte: Calvinus, Inst. de la relig chré t.,l. III, c. 24, n. 12; c. 23, n. 12, Opera, IV, 521, 500. Todo o cap. 2 do livro II é consagrado a demonstrar “que l'homme est maintenant dépouillé de franc-arbitre et misérablement assujetti à tout mal”, Opera, III, 296.

Zwinglio: “Deus é o primeiro princípio do pecado. é por divina necessidade que o homem comete todos os crimes”.. Fonte: Zwinglio, Verke, II, 73, 184.

Melanchthon: “A predestinação divina tira ao homem a liberdade porque tudo acontece segundo os seus decretos... e isto entende-se não só das obras externas mas ainda dos internos pensamentos”.

E, levando a doutrina às mais execrandas, porém, lógicas conclusões, não hesita em afirmar que

“o adultério de David e a traição de Judas são obra de Deus como a conversão de S. Paulo”. Fonte: Melanchthon, Comment. in Epist. ad Rom. Ver todo o trecho em Alzog, Universalgeschichte der chrislichen Kirche,Mainz, 1860, p. 755.

– Deus, autor do mal, o homem joguete inconsciente dos seus arbítrios, tal o resumo da doutrina protestante. Nunca a blasfêmia e a indignidade, o ultraje à santidade divina e à grandeza humana concluíram mais revoltante conspiração.

E aí temos como Lutero e os seus aniquilam o valor da personalidade. Sem livre arbítrio não há imputabilidade, não há mérito, não há moralidade. Em tudo o que se refere à sua atividade moral, o homem não passa de uma “est tua”, de um “tronco inerte”, de uma “pedra”. 
São ainda comparações do chefe reformador, que considerava este artigo da vontade escrava como a quinta essência, a fina flor da sua doutrina, “omnium optimus, et rerum nostrarum summa”. Fonte: Weimar, VII, 148. Cfr. J. T. Mühler, Die symbolischen,Bücher, p. 593.

Após 15 séculos de liberdade cristã eis-nos novamente precipitados na escravidão do fatalismo antigo.




O porco no chiqueiro: ideal moral de Lutero!



Porco na lama ideal moral de Lutero
Porco na lama ideal moral de Lutero




 
Quereis ver ainda até a que baixezas o homem é degradado na pena de Lutero? 

Lêde esta página que peço desculpas ao leitor de transcrever em toda a nudez cínica do seu realismo cru: 


“Sei que se alguém experimentou o temor e o peso da morte preferira ser um porco a ver-se continuamente acabrunhado pelo vexame de semelhante opressão.

“Na sua lama, o suíno julga-se num leito de plumas; descansa pacificamente, ronca suavemente, dorme tranqüilamente; não teme reis nem senhores, morte nem inferno, demônio nem cólera divina; não o agita a menor preocupação, não se inquieta mesmo com a bolota que há de comer.

“E se o sultão de todas as Turquias acertasse de passar-lhe ao lado no fasto do seu poder e de sua realeza, ele conservaria toda a sua altivez e não sacudiria em sua honra uma só das suas cerdas.

“Se o enxotam, solta um grunhido, e se pudera falar diria: Pobre insensato, por que te irritas?

“Não tens a décima parte da minha felicidade, não passarás nunca uma só hora tão tranqüila, tão suave, tão calma, como todas as minhas ainda que fôras dez vezes mais rico e poderoso.

“Numa palavra, o porco vive numa segurança completa, sua vida é toda doçuras. Se o levam para o matadouro, pensa simplesmente que é um tronco de madeira ou uma pedra que o incomoda.

“Até morrer, não espera a morte. Antes, no momento e depois da morte, não experimenta o que é morrer; a vida lhe pareceu sempre boa e eterna.

“Neste ponto, nenhum rei, nem mesmo o messias dos judeus (o que eles ainda esperam), homem algum por mais hábil, rico, santo e poderoso, o poderá imitar”.

Fonte: Ap. Paquier, Luther et le luthéranisme, t. 11, pp. 10-11.

Nos inquilinos das pocilgas achou o reformador o ideal da felicidade!

Hino agora ao emancipador da dignidade humana, palmas ao libertador das consciências!




A contestação protestante demolindo as verdades consoladoras


Depois de haver assim na ordem humana desorganizado as duas grandes molas da vida moral, substituindo na inteligência a estabilidade dos princípios pela arbitrariedade do capricho e enervando a vontade com declará-la radicalmente incapaz de praticar a virtude, na sua freima demolidora atiraram-se os corifeus da Reforma sobre o edifício sobrenatural dos nossos dogmas e, um por um, destruíram os mais divinamente consoladores.

Catedral de S.Martinho, Utrecht, atacada pela iconoclastia protestante em 1572.
Destruíram as imagens e as virtudes que elas representavam.
Inclusive o próprio Deus acima representado!
Felizmente, o conjunto artístico já foi restaurado.
Com todo o peso de sua divina autoridade, Cristo impôs ao gênero humano o jugo austero da sua moral imaculada. 

Ao homem decaído que se revolvia no lodo dos vícios mais abjetos, dirigiu a voz taumaturga da regeneração: sursum, para o alto! Eleva-te a rivalizar com os anjos na pureza da vida! 

Mas ele bem conhecia a fragilidade da nossa argila, as profundezas do abismo em que nos precipitara o pecado e por isso adoçou as severidades do dever com as suavidades do amor. 

Ao lado de cada espinho fez desabrochar uma rosa. 

Vigorizou as pusilanimidades do nosso abatimento com os raios vivificantes da esperança. 

Sobre a nossa esterilidade abriu, aos borbotões, as fontes perenes da sua graça. 

O protestantismo revoltado não teve fé nos excessos da caridade divina e, com a negação, introduziu a desordem nos planos admiráveis da economia salvadora.

Que de mais confortante para o miserável pecador que o dogma das indulgências? 

Que de mais consolador que o dogma do purgatório onde se purificam as almas dos justos das nódoas contraídas na sua peregrinação terrena? 

Que de mais justo e misericordioso que a diferença entre o pecado mortal e o venial, a estabelecer uma distinção entre os crimes que nos matam na alma a vida divina da graça e as faltas a que se não pode subtrair a nossa fragilidade? 

Que de mais suave que a comunhão dos santos,a instituir na ordem sobrenatural esta solidariedade, em virtude da qual somos fortificados pela intercessão e pelo mérito de nossos irmãos? 

O protestantismo levantou o aluvião sacrílego contra todas estas admiráveis construções do amor divino. De todas elas não restam senão ruínas acumuladas pela negação destruidora.




A recusa da confissão, do perdão e da Eucaristia



O sacramento da Penitência, vitral na igreja de Nossa Senhora dos Mártires Ingleses, Cambridge, Inglaterra.
O sacramento da Penitência, vitral na igreja
de Nossa Senhora dos Mártires Ingleses, Cambridge, Inglaterra.
Mas de todas as invenções da misericórdia encarnada não há outras que tão de perto toquem a nossa vida moral e tão intimamente se prendam ao coração do cristianismo como a confissão e a Eucaristia.

A confissão é o arrependimento, é o perdão, é o propósito. 

O arrependimento que apaga um passado de culpas, o perdão que verte sobre o presente o bálsamo das suas consolações inefáveis, o propósito que ilumina o futuro com as perspectivas da regeneração. 

Que alavanca mais poderosa para a atividade moral? 

Lançar frequentemente nas consciências a sonda de um exame imparcial, resgatar com lágrimas sinceras os desvarios da nossa liberdade, firmar as energias do nosso querer com o vigor das resoluções incondicionadas, abrir toda a alma às influências reabilitadoras da graça, aos raios da esperança, à tranquilidade fecunda da paz de consciência – haverá humanamente falando, divinamente falando, meio mais eficaz para elevar é conservar o coração nas regiões serenas da virtude?

O protestantismo negou tudo isto, e negando-o “desconheceu um dos meios mais suaves para dar à vida do homem uma orientação conforme aos princípios da sã moral”. Fonte: Balmes, El protestantismo, c. 30.

Pecaste? persuade-te que Deus te perdoou, que a sua justiça cobre os teus pecados, que a tua fé é inadmissível e, com a fé, a graça. 

Se esta persuasão entrou na alma é o descanso no pecado, o hábito do mal, o endurecimento; se não, é o terror, o desespero. Compreendo agora em lábios protestantes estes gritos da alma:

“Oh! que não daria eu para ajoelhar-me num confessionário católico! (M. de Stael).

“Quem não lançou olhos invejosos ao tribunal da penitência?

“Quem não desejou nas amarguras do remorso, nas incertezas do perdão divino, ouvir uns lábios, que, com o poder de Cristo, lhe dissessem: “Vai em paz, teus pecados te são perdoados”?”

Fonte: E. Naville, Thèse defendue devant l'Académie de Genève, 1839. Cit. por E. Duplessy, Les apologistes au dix-neuvième siècle, Paris, Beauchesne, 1910, p. 238.

A confissão é o amor que perdoa e regenera. A eucaristia é o amor que se imola, o amor que se comunica às almas nos amplexos inefáveis de uma união divina. 

Negada a confissão, como afirmar a Eucaristia? Lutero também aqui deu o primeiro passo na via das negações.
Negada a confissão, como afirmar a Eucaristia?
Lutero também aqui deu o primeiro passo na via das negações.
Quem não teve fé no amor misericordioso, não pode compreender o amor unitivo. Negada a confissão, como afirmar a Eucaristia? Lutero também aqui deu o primeiro passo na via das negações.

A hóstia consagrada não é o corpo de Cristo, contém-no apenas transitoriamente. Calvino foi além e no mistério dos nossos altares viu, não uma realidade consoladora, mas apenas um símbolo, uma figura vazia de verdade. 

Daí à negação completa a distância era pequena e transpuseram-na logo os seus sucessores. A missa foi proscrita como rito idolátrico e os tabernáculos ficaram vazios na solidão dos templos protestantes.

Mas que vale um cristianismo sem Eucaristia: sem a Eucaristia-sacrifício, centro em torno do qual gravita toda a vida litúrgica, sem a Eucaristia-sacramento, fonte donde mana, em torrentes, a graça, vida sobrenatural dos crentes? 

Extinguiram o fogo; o amor entibiou-se nos corações. Estancaram os mananciais; as almas esterilizaram-se. 

As flores mais belas, que no cristianismo haviam desabrochado ao sol de Jesus-Hóstia, feneceram à míngua de calor e de luz. 

Murcharam os lírios, esmaeceram as rosas, secaram as violetas. O sacerdócio casou-se, os mosteiros despovoaram-se, o apostolado mercantilizou-se, a caridade exilada das almas buscou um refúgio nas leis e passou do coração para a algibeira. 

O protestantismo não tem Irmãzinhas dos pobres, Irmãos de S. Vicente, não tem ordens religiosas, não tem ministros continentes, não tem legiões de mártires nem de virgens. 

Onde quer que a virtude se eleva à altura do heroísmo, não achou discípulos entre os descendentes de Lutero. O heroísmo cristão alimenta-se no sangue generoso de Cristo.






Negação do valor das boas obras



Santa Isabel de Hungria fazendo caridade aos pobres
Santa Isabel de Hungria fazendo caridade aos pobres
Não parou nesta primeira fase negativa a obra nefasta de desmoralização iniciada pela Reforma. Depois de negar, o protestantismo afirmou.

Negou todos os dogmas que inspiram, que elevam, que sustentam as almas nas esferas sublimes do sacrifício e do heroísmo. 

Afirmou em seguida um dogma novo que, em si, encerra o germe não só da corrupção mas da completa dissolução da vida moral. Refiro-me à doutrina protestante da inutilidade das boas obras.

Falando da liberdade, já tivemos ensejo de observar como o dogma católico concilia admiravelmente a gratuidade da graça divina com o exercício da nossa atividade livre. 

O auxílio de Deus, absolutamente necessário para elevar as nossas ações à ordem sobrenatural, não dispensa de modo nenhum o esforço da nossa cooperação. Nas finezas do seu amor, dispôs Deus que o homem fosse o artista da sua felicidade.

Destarte, nascidas do conúbio misterioso da graça divina com o livre arbítrio humano, são as nossas ações germe fecundo de vida eterna. 

Verdade altamente digna da misericórdia de Deus e da grandeza do homem, verdade altamente estimuladora da nossa atividade moral. E a Sagrada Escritura no-la ensina frequentemente, inculcando a necessidade das boas obras. 

Que é o magnífico sermão da montanha senão uma promessa da glória aos que praticam o bem? 

Que razão da suprema sentença aduzirá Cristo juiz, senão as boas obras praticadas pelos eleitos e descuradas pelos réprobos? 

Ouvi ao Príncipe dos Apóstolos: “Procurai por meio das boas obras assegurar a vossa vocação e eleição”. 1 Petr., I, 10. Ouvi a Tiago: “a fé sem obras é morta”. Jac., 11, 20. Abri os Evangelhos, lede todas as epístolas apostólicas.

Desta leitura resultará evidente como a luz meridiana que o cristianismo é um grande código de moral imposto à humanidade para a sua salvação. Cristo é Redentor não só, mas legislador também. 

Não basta crer, é mister ajustar as obras à fé; não basta o símbolo, é necessário também o decálogo; si vis ad vitam ingredi serva mandata. Math.,XIX, 17.

Esmagamento dos 'rústicos' (gravura de Gabriel Salmon ilustrando o livro Nicolas Volcyr de Serrouville, 1526) As desordens morais e religiosas protestantes degeneraram no caos religioso, social e econômico com conseguintes revoltas populares que Lutero mandou afogar no sangue.
Esmagamento dos 'rústicos' (gravura de Gabriel Salmon
ilustrando o livro Nicolas Volcyr de Serrouville, 1526)
As desordens morais e religiosas protestantes degeneraram no caos religioso,
social e econômico com conseguintes revoltas populares
que Lutero mandou afogar no sangue.
A primeira preocupação de Lutero e de seus amigos foi alijar a carga pesada das boas obras. Era mister forjar um novo cristianismo menos carrancudo, mais ameno e prazenteiro. 

“A palavra Evangelho significa boa nova, doutrina grata e consoladora para as almas... ouvir que a Lei já foi observada por Cristo, que nós não a devemos observar, mas só unir-nos pela fé àquele que por nós a observou”. Fonte: Weimar, I, 105.
No comentário ao c. 40 de Isaías: “Esta é nossa doutrina que sabemos eficaz para consolar as consciências. viveremos livres, sem lei, e nos persuadiremos que os nossos pecados nos foram perdoados”, Weimar, XXV, 249.

É a doutrina da justificação pela fé, que, na opinião do heresiarca, resume a quinta essência do cristianismo, e, na realidade, é a chave de abóbada de todo o seu sistema teológico. Ei-la em duas palavras. 

Sobre a teoria da justificação em Lutero e a sua dissolução gradual pelas diferentes facções protestantes, cfr. J. A. MoehlerSymbolik, oder Darstellung der dogmatischen Gegensaetze der Katholiken und Protestanten nach ihren oeffentlichen Bekenntnisschriften, Mainz, 1884, l. 1, c. 3. pp. 99-253.

Desta obra clássica escreveu Goyau “La Symbolique est le livre le plus profond que, depuis Luther, une plume catholique allemande ait écrit sur la Reforme''.G. Goyau, Moehler, Paris, Bloud, 1905, p. 38.)

Cfr. ainda: J. Schwane, Histoire des dogmes,trad. franc. de A. Degert, Paris, Beauchesne, 1904, t. VI, 205-239; H. Grisar, Luther, Freib. i. B., Herder, 1911, t. II, pp. 737-781. Este último autor estuda a teoria de Lutero à luz das experiências religiosas e lutas internas de consciência desta alma devorada de escrúpulos e ralada de remorsos. Não é a teologia, é a psicologia que explica a origem da justificação luterana.

O pecado original causou a depravação total do homem. A sua inteligência nas coisas morais e divinas, não pode senão errar, a sua vontade, por mais que se esforce, não faz senão acumular pecados. 

E este estado de decadência identifica-se de tal modo com a essência da natureza humana que é impossível uma regeneração interior, uma verdadeira renovação espiritual. 

Qual será então o efeito da morte redentora de Cristo? 

Uma justificação simplesmente externa, equivalente a uma não-imputação do pecado. Cristo satisfez por nós, Cristo mereceu-nos o céu com o seus sofrimentos. 

A generosidade e abundância de sua Redenção dispensam-nos de qualquer cooperação individual, de qualquer atividade própria, dispensam-nos até do arrependimento e do amor. 

Para ser justificado basta crer na eficácia do sangue divino. A fé cobre todos os nossos pecados. 

Fontes: Livro da Concórdia: “Et quidem neque contritio neque dilectio, neque ulla alia virtus, sola fides tamquam medium et instrumentum quo gratiam Dei, meritum Christi et remissionem peccatorum apprehendere et accipere possumus”. Solida Declaratio, III, De justitia fidei. J. T. Mühler, Die symbolischen Bücher der evangelisch-lutheranischen Kirche, Gütersloh, 1900, p. 616.

Na Apologia da Confissão Augustana : “Sola fide in Christum non per dilectionem, non propter dilectionem aut opera consequimur remissionem peccatorum, etsi dilectio sequitur fidem. Igitur sola fide justificamur”. Corp. Reformat., XXVII, 440.

Em J. T. Mühler, p. 100. Lutero: “Haec est ardua et insignis dignitas veraque et omnipotens potestas, spirituale imperium in quo nulla res tam bona, nulla tam mala quae non in bonum mihi cooperetur. Nulla tamen mihi opus est cum sola fides sufficiat ad salutem”. Weimar, VII, 57.

A Caridade: acolher o estrangeiro.
A Caridade: acolher o estrangeiro.
Desacompanhada de obras, de contrição e de caridade, ela é o processo mecânico e externo, o instrumento com que nos apropriamos os merecimentos; de Cristo, alcançamos a graça e a remissão, ou, mais exatamente, a não-imputação das nossas culpas.

Coberto assim aos olhos de Deus com o manto dos méritos do Redentor (por uma ficção jurídica indigna da santidade divina), o homem continua na realidade e intrinsecamente pecador e fonte contínua de pecados. 

Todas as suas ações, ainda depois de justificado, são pecaminosas e imundas. Mas nenhum pecado, afora o da infidelidade, pode despojá-lo da graça. Se crê, é justo, ainda que cometa os maiores delitos.

Eis na teoria luterana a que se reduz a obra da Redenção: Cristo, para isentar e homem de observar a lei, observou-a em lugar dele; o homem, pela fé, atribui a si esta observância, assegura destarte a graça divina e pode descansar seguro na impunidade do seu pecado inauferível.

Da teoria luterana sobre a queda original e a justificação decorre, como inevitável corolário, a inutilidade e mesmo a nocividade das boas obras. 

Rigorosamente falando, até a expressão “boas obras” é um contra-senso. Essencialmente corrupto, o homem é necessariamente pecador em todos os seus atos. A justificação exterior e forense, não lhe pode sanar este vício essencial. 

Esforçar-se nessas condições, por praticar as que chamamos boas obras não é senão multiplicar pecados.




Emancipação de todo vínculo moral



Martinho Lutero por volta de 1543-46
Martinho Lutero por volta de 1543-46
Os reformadores não recuaram ante a enormidade dessas consequências. Antes de tudo, a inutilidade das obras na justificação do pecador. 

“Rejeitamos e condenamos as proposições em que se afirma a necessidade das boas obras para a salvação”. 

Pouco antes a mesma Fórmula da Concórdia, símbolo oficial do luteranismo, assim exprimira o artigo da nova fé: 

“Cremos, ensinamos e confessamos que as boas obras se devem totalmente excluir (penitus excludenda), não só quando se trata da justificação pela fé, senão ainda quando se discute acerca de nossa eterna salvação”. Fonte: Formula Concordiae, I, art. IV, n. 16 e 7; J. T. Mühler, pp. 533, 531.

Inúteis as boas obras; não só, senão ainda nocivas. Fale Lutero no seu Comentário da epístola aos Gálatas: 

“a lei, as obras, a caridade, os votos não só não resgatam mas agravam a maldição. Quanto mais obras fizermos tanto menos poderemos conhecer e apreender a Cristo” . Fonte: Weimar, XL, I Abt., p. 447.


À vista das consequências imorais desta doutrina, um professor de Wittemberga, Jorge Maior, tentou modificá-la, proclamando as boas obras, necessárias, como condição sine qua non, à salvação eterna. 

Por toda a parte, surgiram os contraditores, Nicolau d'Amsdorf, amigo de Lutero e por ele consagrado “bispo” de Naumburg, saiu à estacada com uma obra apostólica a que deu por título: Que a proposição “as boas obras são nocivas à salvação” é justa, verdadeira, cristã, pregada por São Paulo e São Lutero (sic) (1559). 

Tal a teoria da justificação nos primeiros reformadores. 

Todas as formas de imoralidade passaram a ser fruto da vontade divina !
Todas as formas de imoralidade passaram a ser fruto da vontade divina !
Digo nos primeiros reformadores porque alguns símbolos e teólogos protestantes de época posterior, sob a pressão das objeções católicas, limaram as arestas de tão angulosa doutrina, e procuraram, ainda com sacrifício da coerência sistemática, inculcar de algum modo a necessidade de outras virtudes, que não só a fé.

À luz fosca desta doutrina como se transmuda o aspecto do Evangelho! 

Julgávamo-lo todos um código elevadíssimo de moral, um conjunto de preceitos sancionados com prêmios e castigos e destinado a sublimar o homem muito acima da simples lei natural. 

Que engano! 

O Evangelho é a emancipação de toda a espécie de vínculos morais, é o fundamento de uma confiança absoluta de chegar ao céu sem esforço, é o código do prazer. 

Nele encontra o crente um título de isenção da virtude e um rescrito de indenidade para todos os vícios. Eis a boa nova, “a doutrina grata e consoladora para as almas”.

Não se admire o leitor. Todas essas conclusões, por mais abomináveis que pareçam a quem conserva uns restos de senso moral, encontram-se não só virtualmente na doutrina protestante da justificação, mas expressa e formalmente nos escritos dos primeiros reformadores. 

Alego uma ou outra citação ao acaso entre as inúmeras que, se poderiam colher nas obras de Lutero. 

“O Evangelho não prega o que devemos fazer; não exige nada de nós. Antes, em vez de dizer-nos: faze isto ou aquilo, manda-nos simplesmente estender as vestes e receber: toma, meu caro, eis o que Deus fez por ti; por teu amor ele vestiu o próprio Filho de carne humana... aceita este dom; crê e serás salvo” .

Fonte: Weimar, XXIV, 4; cfr. Weimar, XL, 1 Abt, 168.

– “Não desesperes por causa dos teus pecados mas cobra ânimo e dize: posso ter feito algum bem ou, algum mal, mas isto pouco importa; Cristo sofreu por mim...

“A isto se reduz todo o cristianismo, a sentir que não tens pecado ainda quando pecas, a sentir que teus pecados aderem a Cristo, que é salvador do pecado”.

Fonte: Weimar, XXV, 329, 331.

Este antagonismo entre a lei moral e o Evangelho recorre a cada passo na pena do infeliz apóstata em busca de um anestésico poderoso para a consciência dilacerada de remorsos. 

A fim de salvar o Evangelho é mister aniquilar a lei moral: são inimigos irreconciliáveis e incompatíveis.

“É necessário que procuremos com todas as forças afastar a lei da nossa consciência quanto o céu da terra...

“Quando a lei te aterroriza, te acusa, te mostra o pecado, te ameaça com cólera divina e com a morte, faze como se nunca houvera existido lei ou pecado, como se só existira Cristo que é todo graça e redenção.

“Ou se sentes no fundo da alma os terrores da lei, repete: lei, não quero ouvir-te;... chegou a plenitude dos tempos, sou livre, já não suportarei o teu império”.

Fonte: Weimar, XL, 1 Abt., p. 557; cfr. t. XXV, 249-250.

Que esforços de uma vontade obstinada para sufocar “os terrores da lei na consciência!” 

Vede-o ainda a debater-se contra a ideia de Cristo legislador e de Cristo juiz. Vede a exorcizá-la como uma obsessão diabólica! 

“Se Cristo nos aparecesse como juiz irritado ou legislador que nos chama a contas, consideremo-lo como um demônio furioso e não como a Cristo”Fonte: Weimar, XL, 2 Abt., p. 13.

A assembleia dos heresiarcas evangélicos pelo menos concordava num ponto pecar é vontade de Deus !
A assembleia dos heresiarcas evangélicos pelo menos concordava num ponto:
pecar é vontade de Deus !
“Não só com as palavras mas também com as nossas ações e com o nosso procedimento exercitemo-nos com diligência [para cauterizar a consciência é mister muito exercício!] em separar Cristo de qualquer ideia de legislador a fim de que, apresentando-se-nos o demônio sob a figura de Cristo para molestar-nos em seu nome, saibamos que não é Cristo, mas que é verdadeiramente o diabo”.

Fonte: Weimar, XL, 1 Abt., p. 299.

Edifiquemo-nos ainda nestas passagens do Reformador: “O cristão principalmente nas tentações, não deve absolutamente pensar em lei, em pecado”...

Ouvimos Lutero, ouçamos os seus discípulos mais célebres.

Melanchthon: “Em qualquer das tuas ações, comendo, bebendo, ensinando ou trabalhando manualmente ainda que seja evidente que pecas em tudo isto, não te preocupes com as tuas obras; considera as promessas de Deus e crê confiadamente que no céu não tens um juiz mas um bom pai todo amor e ternura”.

Fonte: Melanchthon, De locis theologicis, Corpus Reformat, XII, 163-164.

Como quem dissera: és ladrão, homicida, adúltero, caluniador? não te incomodes, tuas ações de nada valem. Lá no céu, Deus é um bom e velho papai que fecha os olhos complacentemente e perdoa tudo.

Calvino atira a barra mais longe. À doutrina da justificação de Lutero acrescenta a da inadmissibilidade da fé. 

A fé que justifica, segundo o reformador de Genebra, é um dom divino concedido ao homem uma vez para sempre e para sempre . 

Os delitos mais graves, cometidos por quem uma vez se achou em estado de graça, não o poderão nunca privar da amizade de Deus. É a predestinação infalível, a carta branca para todos os excessos.




Deturpando os Evangelhos



Deturpando os Evangelhos.
Deturpando os Evangelhos.
Mas, dirá o leitor, e a Escritura? Não a haviam proclamado os protestantes regra infalível de fé? 

Como fechar tão obstinadamente os olhos a ponto de não ver nas páginas divinas a condenação mil vezes repetida de doutrina tão imoral? 

Assim parece. Mas a Escritura deve ser interpretada pelo livre exame. Só assim é regra de fé e norma de costumes. 

A Escritura vale, pois, o que vale a sua interpretação. 

Deixada aos caprichos e paixões individuais, não há livro mais inofensivo e acomodatício. 

À “crítica” do leitor não faltarão nunca expedientes para trazer o texto ao sentido que se deseja. Em caso de rebeldia absoluta, aí estão os recursos extremos da crítica cirúrgica: a amputação. Quereis ver Lutero em exercício de suas funções de livre comentador? Ouvi-o:

Diz S. Tiago na sua epístola que “a fé sem obras é morta”, que “o homem é justificado pelas obras e não só pela fé”? A epístola de S. Tiago é apócrifa, deve ser expungida do rol das escrituras canônicas como uma “verdadeira epístola de palha”, eine rechte stroeherne Epistel. 

Fonte: Erf., LXIII, 115; Walch, XIX, 142; XIV, 105.

Precisa o nosso exegeta de uma autoridade que confirme a sua doutrina? Lança mão de um texto de S. Paulo na sua Epístola aos Romanos: “arbitramur justificari hominem per fidem sine operibus legis”.

Para entender-se o verdadeiro significado deste passo cumpre observar que nele, e em tantos outros lugares de suas epístolas, combate o Apóstolo aos judeus que se obstinavam em afirmar a necessidade da Lei antiga (Lei, Thorah, era o título com que indicavam os hebreus o Pentateuco em oposição aos Profetas, nome com que se designavam os outros livros inspirados). 

Contra esse erro assevera S. Paulo que não são os ritos mosaicos que santificam o homem, mas a fé em Cristo, na sua Redenção, na sua justiça. 

De um lado, a incredulidade em Cristo e a confiança nas obras da Lei praticadas pelas simples forças naturais do homem, do outro a fé no Redentor e na sua justificação, como dom gratuito de Deus são aqui os membros da antítese, e não a fé no Salvador e as boas obras sobrenaturais inspiradas por esta fé. 

Não lhe bastou adulterar um novo Evangelho, e passou a recortar os livros inspirados.
Não lhe bastou adulterar um novo Evangelho, e passou a recortar os livros inspirados.
O Apóstolo distingue sempre as obras da Lei e as boas obras. A necessidade destas últimas, isto é, das boas obras informadas pela graça e pelo espírito do Cristo, professa-a claramente S. Paulo em mil lugares das suas epístolas. 

Nesta mesma, aos Romanos, II, 7, 13 escreve : 

“Aos que constantes no bem operar proclamam à glória, a honra, a imortalidade (dará o Senhor) a vida eterna... Porque não são justos diante de Deus os que ouvem a Lei, mas serão justificados os que a põem em prática”. 

“Aos fiéis da Galácia, V, 6 : “Em Jesus Cristo nada vale o circunciso ou o incircunciso, mas a fé que opera pela caridade”. 

“Como se vê, acontece com os protestantes o que já dizia S. Pedro : “In quibus [i. é. nas epístolas de S. Paulo] sunt quaedam difficila intellectu quae indocti et instabiles depravant, sicut et ceteras Scripturas ad suam ipsorum perditionem”, II Petr., III, 16.

E insere fraudulentamente na sua tradução alemã a palavra só antes de fé (allein durch das Glauben). 

Reclamam naturalmente os adversários contra semelhante processo crítico. Lutero não recua e escreve a Link: 
“Se o novo papista quiser importunar-nos por causa da palavra só responde-lhe logo: assim o quer o Dr. Martinho Lutero que diz: papista e asno são a mesma coisa. Sic volo, sic jubeo, sit pro ratione voluntas... 

“Só me pesa de não haver acrescentado também a palavra nenhuma, sem obra nenhuma de lei alguma, o que exprime o meu pensamento [e o da Bíblia?] com toda a nitidez e clareza.

“Por isto quero que a partícula fique no meu Novo Testamento e ainda que enlouquecessem todos estes asnos de papistas não vingarão eliminá-la”.

FonteCarta a Link, 12 set. 1530. Weimar, XXX, 2 Abt., 635 e 643.
Mas não basta haver criado um novo Evangelho, um Evangelho seu. 

Todos os Livros santos da primeira à última palavra protestam energicamente contra o seu erro. 

Que fará o grande paladino da Escritura? 

Desprezará e rejeitará todos os livros inspirados. Ouçam protestantes e não protestantes:
“Se os nossos adversários fazem valer a Sagrada Escritura contra Jesus Cristo, nós fazemos valer Jesus Cristo contra a Escritura. Do meu lado, tenho o Senhor, eles têm os servos, nós, a cabeça, eles, os pés e os membros que se devem sujeitar e obedecer à cabeça.

“Se é mister sacrificar-se a lei ou Jesus Cristo, sacrifique-se a lei, não Jesus Cristo”.

Fonte: Opera latina, Wittemberga, I, 387-a.

A Escritura?:  “Dela me não importo”.
A Escritura?:  “Dela me não importo”.
“Tu fazes grande caso da Escritura que é serva de Jesus Cristo; eu, pelo contrário, dela me não importo. 

“À serva liga a importância que quiseres, eu quero valer-me de Jesus Cristo que é o verdadeiro senhor e soberano da Escritura e que mereceu e conquistou com a sua morte e ressurreição a minha justiça e a minha salvação eterna”.

Fonte: Walch, VIII, 2140 ss.

Assim, depois de haver o heresiarca levantado a Escritura como pendão de revolta contra a Igreja, sacrifica ora a Escritura a Jesus Cristo. 

Mas sem a Igreja e sem a Escritura, que sabe Lutero de Jesus? Cristo será apenas nos seus lábios um passaporte para todos os devaneios doutrinais, para todas as licenças de sua ímpia reforma. 

Tão verdade é que Cristo, a Escritura e a Igreja constituem uma trilogia inseparável; impossível impugnar uma destas verdades sem destruir as outras.

Destarte, atropelando a razão, conculcando a Igreja, menosprezando e falsificando a Bíblia, injuriando sacrilegamente a Jesus Cristo, conseguiu o frade apóstata estabelecer a mais imoral das doutrinas que ainda viram os homens: a apoteose do pecado arvorado em instrumento eficaz de salvação. 

Toda essa indignidade se acha condensada nas célebres palavras:
Sê pecador, e peca a valer, mas com mais firmeza ainda crê e alegra-te em Cristo vencedor do pecado, da morte e do mundo. Durante a vida presente devemos pecar.

“Basta que pela misericórdia de Deus conheçamos o Cordeiro que tira os pecados do mundo. Dele não nos há de separar o pecado, ainda que cometêssemos por dia mil homicídios e mil adultérios”.
Eis no original o texto abominável : 
“Esto peccator et pecca fortiter; sed fortius fide et gaude in Christo, qui victor est peccati, mortis et mundi. Peccantum est quamdiu hic sumus... Sufficit quod agnovimus per divitias gloriae Dei Agnum qui tollit peccatum mundi: ab hoc non avellet nos peccatum etiamsi millies millies, uno die, fornicemur aut occidamus”.

Fonte: De Wette, II, 37 (Carta a Melanchthon, 1 agosto de 1521).




Corrupção dos costumes


A Nau dos Insensatos, detalhe, Hyeronimus Bosch (1450 — 1516)
Capítulo 2. –– A moralidade dos costumes na Reforma

Sumário – Decadência geral dos costumes.– Particularizando: abolição do celibato; divórcio; poligamia; embriagues; egoísmo.


Dos desvios da inteligência sempre se ressente o coração. Não há no domínio especulativo doutrina errônea que, cedo ou tarde, pela lógica imanente das coisas, não tenha sua repercussão na vida moral dos povos e dos indivíduos. 
“Illuminationis puritas et arbitrii libertas, escreveu Bacon, Simul inceperunt, simul corruerunt. Neque datur in universitate rerum tam intima sympatia quam illa veri et boni”.
E o critério evangélico dos frutos que abonam a qualidade da árvore recebeu sempre, no desenvolvimento paralelo do erro e do vício, a sua mais cabal justificação.

Não seria, pois, difícil ao filósofo antever nas doutrinas imorais do protestantismo o germe desgraçadamente fecundo de uma abominável corrupção de costumes. 

A história dá a estas previsões teóricas a mais sinistra confirmação experimental. Carlos Pereira, sem se dar ao trabalho de provar as suas asserções, afirma aos que lhe quiserem piamente crer que 
“a reforma pôs um dique a esses desregramentos e o puritanismo protestante salvou o mundo da completa dissolução dos costumes, dando aos homens uma têmpera moral incomparável”, pp. 121-2.
Francamente, não experimento em mim este devoto sentimento de credulidade nas palavras do mestre gramático. Prefiro abrir a história e recolher-lhe o testemunho insuspeito.

A Nau dos Insensatos,
Hyeronimus Bosch (1450 — 1516)
E que depõe a história? 

Só lhe ouço uma voz para acusar, nos países em que prevaleceu a pregação do ‘novo evangelho’, um extravasamento de imoralidade, que não encontra semelhante senão nas eras mais abominosas da ruína de Sodoma, das orgias de Babilônia ou da decomposição do paganismo agonizante.

É o que pretendo agora provar, documentos à vista. Na instrução do processo só admitirei, como testemunhas, os próprios protestantes contemporâneos e de preferência os pais da Reforma.

A Lutero, como é de justiça, o primeiro lugar. Em 1529: 
“Os evangélicos são 7 vezes piores que outrora. Depois da pregação da nossa doutrina, os homens entregaram-se ao roubo, à mentira, à impostura, à crápula, à embriaguez e a toda espécie de vícios. 

“Expulsamos um demônio [o papado] e vieram sete piores. Príncipes, senhores, nobres, burgueses e agricultores perderam de todo o temor de Deus”. 

Fonte: Weimar, XXVIII, 763.
Qual a causa deste desencadeamento do mal? A nova doutrina.
“Depois que compreendemos não serem as boas obras necessárias para a justificação, ficamos muito mais remissos e frios na prática do bem. 

“É admirável (dictu mirum) com que fervor nos dávamos às boas obras outrora, quando por meio delas nos esforçávamos por alcançar a justificação.

“Cada qual porfiava em vencer os outros em piedade e honestidade.

“E se hoje se pudesse voltar ao antigo estado de coisas, se de novo revivesse a doutrina que afirma a necessidade do bem fazer para ser santo, outra seria a nossa alacridade e prontidão no exercício do bem”.

Fonte: Weimar, XXVII, 443.
Carroça de Feno, detalhe
(Museu do Prado, Madrid),
Hyeronimus Bosch (1450 — 1516).
O heresiarca leva a sinceridade ao ponto de confessar os efeitos dissolventes da Reforma sobre a própria consciência. Num sermão pregado em 1532:
“Quanto a mim confesso – e muitos outros poderiam sem dúvida fazer igual confissão – que sou desleixado assim na disciplina como no zelo, sou muito mais negligente agora que sob o papado; ninguém tem agora pelo Evangelho o ardor que se via outrora.

Quanto mais certos estamos da liberdade que nos conquistou Cristo, tanto mais frios e negligentes somos em pregar, orar, fazer o bem e sofrer o mal”.

Fonte: Weimar, XL, 2 Abt., 61.
À medida que o “novo evangelho” se propagava, avultava e engrossava também a onda da imoralidade. 

Com o tempo as expressões do Reformador carregam-se de tintas cada vez mais escuras. Em 1542 escrevia a Amsdorf: 
“é tanto o desprezo pela palavra de Deus, tão desmesurado o crescer dos vícios, da avareza, da usura, da licença, dos ódios, das perfídias, das invejas, da soberba, da impiedade e das blasfêmias que não é provável que Deus use ainda de misericórdia com a Alemanha”.

Fonte: De Wette, V, 462.
No ano seguinte, ao mesmo amigo: 
Tal era o mundo antes da destruição de Jerusalém, antes da devastação de Roma, antes da perda da Grécia e da Hungria, tal será e é, antes da ruína da Alemanha”.

Fonte: De Wette, V, 600-601.
Um ano antes de sua morte, em 1545, em carta a Gaspar Beier: 
O mundo está cheio de Satanás e de homens satânicos”. Fonte: De Wette, V, 721.


Lutero: o “berço do puro Evangelho”
virou “foco de abominável corrupção”


O Jardim das delicias terrenas.  Hyeronimus Bosch (1450 — 1516).
O Jardim das delicias terrenas.
Hyeronimus Bosch (1450 — 1516).
Wittemberga, berço do puro Evangelho e residência habitual de Lutero, tornara-se outrossim um foco de abominável corrupção. Poucos anos depois de iniciada a “reforma”, já o heresiarca se queixava num sermão: 
“Que fazer convosco, Wittembergenses? Já não vos pregarei o reino de Cristo que não quereis receber. 

“Sois ladrões, rapaces e cruéis... brutos ingratos. Arrependo-me de vos haver libertado da tirania dos papistas. Vós,ingratissimae bestiae,sois indignos do tesouro do Evangelho”.

Fonte: Weimar, XXVII, 408-411.
Com a veemência de semelhantes impropérios, os costumes não melhoravam. 
“Vivemos ou melhor morremos nesta Sodoma, nesta Babilônia”.
Fonte: De Wette, V, 722.

Escrevia em 1545 ao Príncipe de Anhalt, Jorge; e poucos meses depois à sua Catarina: “Fora, fora desta Sodoma”.

Fonte: De Wette, V, 753.
Do estado moral de Wittemberga já em 1527 escrevia Melanchthon a Justo Jonas: 
“Quando vieres a Wittemberga verás como tudo o que havia de bom ameaça ruína, que ódios dividem os homens, que desprezo de toda a honestidade, que ignorância nos que governam as igrejas, e quão [duas palavras gregas]”.

Corpus Reformatorum,I, 888.
Ickelsamer escrevia a Lutero: “Quanto mais se aproxima alguém de Wittemberga, tanto pior cristão se vai tornando”.
O incêndio, que assim crescia de dia para dia com imensa ruína das almas, não podia deixar, de quando em quando, de remorder-lhe a consciência atordoada pelo orgulho. 
“Vejo esses males e os deploro. Muitas vezes pensei se não teria sido melhor conservar o Papado, do que ver tamanha perturbação. Melhor é, porém, arrancar alguns das fauces do demônio do que perecerem todos”.
Fonte: Weimar, XX, 674.
Nestes momentos de angústia, para tranqüilizar os sobressaltos da consciência, acolhe-se à convicção fanática da sua missão divina. 
A Nau dos Insensatos, detalhe, Hyeronimus Bosch (1450 — 1516)
A Nau dos Insensatos, detalhe, Hyeronimus Bosch (1450 — 1516)
“A idéia que é divina a minha missão é-me de grande conforto. Com ela muitas vezes me defendo do pensamento satânico de que o Evangelho é a causa dos grandes escândalos que presenciamos.

“Confesso, porém, que se Deus não me fechara os olhos, se houvera previsto todos esses males, nunca certamente teria começado a pregar o Evangelho”.

Fonte: Walch, VI, 920 (Doellinger, Die Reformation,2(2), 304).

“Quem de nós, dizia ele em 1538, se teria abalançado a pregar, se pudera prever que tanta desgraça, tanto escândalo, tanto crime, tanta ingratidão e malvadez seriam o resultado da nossa pregação?

“Agora, uma vez que chegamos a este estado, soframos-lhe as conseqüências”.

Fonte: Walch, VIII, 564, (Doellinger, Die Reformation,I(2), 305).
Último pensamento, enfim, que o consola em meio do dilúvio de males por ele desencadeado é a iminente destruição universal. A aniquilação do mundo, ele a invoca com esperança como supremo remédio. 
“Desejo sair, com todos os meus, deste mundo satânico; anelo pelo supremo dia que porá termo aos furores de Satã e dos seus”.

Fonte: De Wette, V, 703.
Ao mesmo amigo J. Probst escrevera dois anos antes, em 1542: 
“O mundo ameaça ruína; disto tenha certeza: tal é o furor de Satanás, tal o embrutecimento geral.

“Só me resta como consolo a iminência do dia derradeiro... a Alemanha foi e nunca voltará a ser o que foi”.

Fonte: De Wette, V, 451.




Muskulus: “não é possível piorar”


A ideia do fim iminente do mundo tornou-se nos últimos anos uma verdadeira obsessão para o heresiarca, que ainda uma vez arriscou nela os seus créditos de profeta. 

O mundo não duraria 100 anos, nem mesmo 50! A corrupção era tão geral e tão profunda que já não podia crescer e só o juízo final lhe poderia pôr termo. Sobre as idéias de Lutero acerca do fim próximo do mundo, cfr. Grisar, Luther, III, 202-211.

Já nos parece ouvir nestas expressões coloridas ainda de tintas cristãs, o grito pessimista de Hartmann apelando para “o suicídio cósmico” como único termo aos males irremediáveis da vida.
Em Melanchthon, discípulo predileto de Lutero, a mesma persuasão, sugerida pelos mesmos motivos.

“Cresce de dia para dia o desprezo da religião, não só entre o novo a quem se pode perdoar, mas entre os sábios que ou se fazem epicureus ou acadêmicos.

“A corrupção dos homens, a tristeza dos tempos e a insânia dos príncipes bem mostram [quatro palavras gregas] e que é iminente o advento de Cristo”.

Fonte: Corpus Reformatorum, III, 895.
Andreas Musculus 'não é possível piorar'. O Triunfo da Morte, Pieter Brugel
Andreas Musculus 'não é possível piorar'.
O Triunfo da Morte, Pieter Brugel
Andreas Musculu: “se os nossos filhos,
já afogados na desordem e na dissolução,
tiverem descendentes será preciso
que se transformem em verdadeiros demônios,
porque não vejo como cheguem a ser piores que nós”.
Depois dos mestres os discípulos.

André Muskulus, um dos mais fogosos campeões do luteranismo, escrevia em 1561:

“Chegamos a tal extremo que já não há, entre nós, quem não confesse claramente que nunca, desde que o mundo é mundo, houve tanta corrupção na juventude.

“Não é possível piorar... Se o mundo durar ainda algum tempo e se os nossos filhos, já afogados na desordem e na dissolução, tiverem um dia descendentes que nos sobrelevem no vício e na malícia, será preciso que os homens se transformem em verdadeiros demônios, porque realmente não vejo como, conservando caráter humano, cheguem a ser piores que nós”.

Fonte: A. Muskulus, Von der Teufels Tyrannei, no Theatrum diabolorum f. 160. Cfr. etiam f. 128, 137 b.

Pouco mais tarde, Belzius que, com o seu divórcio beneficiara também da emancipação geral das consciências, assim pinta os costumes do tempo: 
“Quereis ver reunida no mesmo lugar uma população inteira de selvagens e ímpios, entre os quais toda a espécie de iniquidade é de prática cotidiana e, por assim dizer, de moda?

“Ide às nossas cidades luteranas, onde se acham os pregadores mais estimados e onde o santo Evangelho é pregado com mais zelo: aí a encontrareis...

“Dos púlpitos já se brada que as boas obras são não só desnecessárias senão ainda nocivas à salvação das nossas almas”.

Fonte: Belzius, Von Jammer und Elenden menscht. Lebens, Kurzer Unterricht aus dem 90 Psalm, Lipsiae, 1575, C. 6, D. 6.
Belzius: “Ide às nossas cidades luteranas:
aí encontrareis.uma população inteira de selvagens e ímpios”
Comparando os novos costumes com os antigos, escreve Pirkheimer em 1527: 
“Esperávamos que a malvadeza romana bem como os maus costumes dos monges e padres se devessem corrigir; mas, a quanto vemos; as coisas foram de tal jeito piorando, que em confronto dos velhacos evangélicos os antigos seriam santos”.

Fonte: Ap. Hermann, Documenta litteraria, Aldorfii, 1758, p. 59.
Um franciscano apóstata Eberlin de Günzburg, confessa igualmente: 
“somos duas vezes piores que os papistas, antes piores que Tiro, Sidônia e Sodoma”.
Fonte: B. Riggenbach, Jah, Eberlin von Günzuburg, 1856, p. 242.
Se assim é, por confissão dos próprios chefes da Reforma, quanto mais se esforçam os modernos protestantes por pintar com tintas carregadas a época anterior a Lutero, tanto mais negro deverá aparecer o luteranismo.




A obra-prima do fanatismo


O sono da razão produz monstros. Francisco Goya (1746 - 1828), Museu do Prado.
O sono da razão produz monstros.
Francisco Goya (1746 - 1828), Museu do Prado.
A doutrina da inutilidade das boas obras era o grande agente corruptor. À sua sombra organizava-se a licença autorizada.

Afirma-o, entre muitos outros, Diogo André com a autoridade de quem, como inspetor, empreendeu inúmeras viagens e recolheu muitas observações, publicadas em 1568: 

“A fim de que saiba o mundo inteiro que não são papistas e não põem a sua confiança nas boas obras, os nossos luteranos diligenciam por não praticar nenhuma.

“Em vez de jejuar, comem e bebem noite e dia; em vez de socorrer os pobres, acabam de esbulhá-los; em vez de orar, blasfemam e desonram a Jesus Cristo, por modos que excedem a ousadia dos próprios turcos.

“Finalmente, em vez da humildade cristã, aninham no coração o orgulho e o amor do erro. Tais são os costumes dos nossos evangélicos”.

Fonte: Jacob Andreas, Erinnerung nach dem Lauf der Planeten gestellt,Tübingen, 1508, pp. 140 ss.

Insistamos um pouco mais em mostrar como o desmando geral dos costumes se apresentava evidentemente como uma consequência das doutrinas e da pregação da Reforma.O reitor protestante I. Rivius escreve em 1547: 

“Se és adúltero ou libertino, dizem os pregadores, crê simplesmente e serás santo.

Eis a obra-prima do fanatismo!
Eis a obra-prima do fanatismo!
“Nem temas a lei, porquanto Cristo a cumpriu e satisfez pelos homens... Semelhantes discursos levam à vida ímpia”.

Fonte: I. Rivius, De Stultitia mortalium, Basilae, 1557, I. 1, p. 50 s.
Em 1525, Jorge, duque de Saxônia, escrevia ao corifeu reformador: 
“Quando se viu maior número de adultérios como depois que escreveste: se uma mulher é estéril, una-se a outro e os filhos sejam alimentados pelo primeiro marido. E outro tanto façam os homens?”.

Fonte: Enders, V, 289; ed Jena, 1556, III, 211.
E como não haveria de ser assim quando se ouvia Lutero ensinando desde 1523: 
“Deus só te obriga a crer e a confessar.

“Em todas as outras coisas te deixa livre e senhor de fazer o que quiseres, sem perigo algum de consciência; antes é certo que, de si, ele não se importa, ainda mesmo se deixasses tua mulher, fugisses do teu senhor e não fosses fiel a vínculo algum.

“E que se lhe dá, se fazes ou deixas de fazer semelhantes coisas?”.

Fonte: Weimar, XII, 131 ss
A tentação de Santo Antônio, detalhe.
Hieronymus Bosch (1450 — 1516)
Cabe aqui a observação que em 1565 fazia Joannes Jacobus na obra sobre a sua conversão: 
“entre os católicos os pecados atribuem-se às pessoas, entre os luteranos às doutrinas e às pessoas”.

Räss, Die Convertiten seit der Reformation,Freiburg i. B., 1866, I, 522.

Fechemos esta primeira série de testemunhas acerca da corrupção geral desencadeada pelo protestantismo com o depoimento de Pedro Arbiter, interessante sobretudo no ponto de vista da psicologia dos primeiros reformadores: 
“Porque permanecem alguns fiéis ao papismo e outros a ele voltam depois de o haver renunciado, senão porque de tal modo os cega o espírito das trevas, que, quer entre nós, quer entre eles, consideram como nonada o que deveriam estimar como coisa principal e atribuem, pelo contrário, gran-díssima importância ao que não na tem nenhuma?

“Porquanto, que vale todo o bem do mundo, que é a perfeição, a sabedoria, a autoridade, a ordem, a concórdia e as outras virtudes que admiramos entre os papistas, se a doutrina é má e para a salvação só a doutrina é indispensável?...

“Permiti que vos dê um conselho? Para julgar entre a Igreja papista e a nossa, atendei à doutrina e não às aparências”.

Fonte: P. Arbiter, Die christl. Busselehre mit der papitschen verglichen, Magdeburg, F. 2, 3.
Ironia das coisas! A depravação dos costumes da Igreja Romana fora o pretexto da revolta religiosa que se apresentou ao povo sob o especioso nome de Reforma. 

Ora, diante da corrupção avassaladora que babilonizava os povos, diante dos desmandos protestantes, a cuja comparação os costumes católicos eram confessadamente a perfeição, a ordem, a sabedoria, e outras virtudes admiráveis, que fazem os paladinos da regeneração do cristianismo?

Em lugar de arrepiarem carreira, proclamam a dissolução moral uma bagatela para desprezar-se e apelam cinicamente para a doutrina, – para esta doutrina, que abalando os princípios, negando a liberdade, inculcando o pecca fortiter, assegurando a certeza da salvação sem virtudes, a inadmissibilidade da graça, emancipara as consciências da lei e da responsabilidade, abrira a porta a todos os desmandos, soltara o freio a todos os apetites brutais, estimulara todas as paixões, divinizara o pecado! 

Eis a obra-prima do fanatismo!




Degeneração do casamento e desprezo da mulher


Giovanni di Niccolò de Lutero, dito Dosso Dossi.
Mas não paremos nas linhas gerais deste quadro moral digno dos tempos do paganismo. 

Examinemos-lhe por miúdo as particularidades vergonhosas. Só contrafeito é que revolvemos esta vermineira em fermentação. 

Mas como ao médico, também ao historiador e ao moralista incumbe, por vezes, este penoso dever. A verdade merece que lhe sacrifiquemos os melindres de uma delicadeza descabida.

O catolicismo plantara sobre os restos putrefatos do paganismo uma flor desconhecida da humanidade: a pureza. 

Fecundados pela seiva cristã, medraram os lírios no sacerdócio, no matrimônio, na juventude, em todas as idades, em todas as condições, em todas as camadas da sociedade. 

O “sentido depravado”, de que nos fala Lacordaire, continuou sempre a exercer sobre a argila humana a tirania das suas seduções, mas a Igreja não cedeu nunca, não transigiu nunca com a fraqueza da carne. 

O ideal de pureza, conservou-o sempre elevado a iluminar com as suas luzes as trevas das eras barbáricas e a atrair com os seus encantos as almas nobres e sedentas de amor e de sacrifício. 

À sua sombra reuniu-se em todos os tempos um manípulo de escol: exemplo vivo aos contemporâneos dos heroísmos da abnegação, espetáculo de paraíso a exercer sobre as multidões da terra a influência saneadora da virtude celeste em ação.

Ulrich Zwinglio: “Bem sabeis a vida vergonhosamente nefanda que temos levado com mulheres que induzimos ao mal”.
Ulrich Zwinglio: “Bem sabeis a vida vergonhosamente nefanda
que temos levado com mulheres que induzimos ao mal”.
O primeiro cuidado da Reforma foi destruir este jardim do céu. Os seus chefes, cansados do celibato, procuraram no matrimônio um remédio aos apetites que já não sentiam força de refrear. 

Em 1522, Zwinglio, em seu nome e no de alguns outros sacerdotes, apresentava aos magistrados uma súplica em que, entre outras coisas edificantes, dizia: 
“Bem sabeis a vida vergonhosamente nefanda que até aqui (falamos só de nós) infelizmente temos levado com mulheres que induzimos ao mal e com as quais temos dado muitos escândalos”. 

Fonte: Zwinglio, Werke, I, 225.
Ao mau exemplo estava reservada mais alta consagração. Lutero, que já se havia dado a todos os excessos da embriaguez e da crápula, pôs o remate à sua vida licenciosa, profanando criminosamente com uma ex-freira, ele, ex-frade, um corpo duplamente sagrado virgem, pela unção sacerdotal e pelos juramentos da vida religiosa.

Quando os pastores titulados são assim, não é difícil conjeturar o que será a grei comum dos anônimos. 

Os sacerdotes escandalosos bateram as palmas ao ouvir a “boa nova”, do evangelho de Wittemberga; os mosteiros de religiosos, esquecidos da dignidade da sua vocação, despovoaram-se. 

A grande tragédia da reforma terminou na comédia de um casamento universal. A expressão é de Erasmo: 
“Parece que a Reforma se resolve em desfradar alguns monges e casar alguns padres; e esta grande tragédia termina num desfecho cômico, porque tudo acaba num casamento como nas comédias”.
Não se pode tocar impunemente na grande hierarquia das virtudes cristãs. À incontinência no celibato abriu Lutero a porta do matrimônio; à incontinência no matrimônio abriu a porta do divórcio. 

Quando esse apóstolo fogoso da dissolução bradou à Europa que o matrimônio não era sacramento, vibrou um golpe mortal à família cristã. 

Reduzido a simples contrato civil, o ato augusto que une os esposos, santificando-os, foi despojado de toda a sua dignidade. Renasceu o sensualismo e a família retrocedeu às eras pagãs.
Ouçamos Fr. Staphylus que escrevia em 1562:

Enquanto o matrimônio foi considerado como sacramento, o pudor e a honestidade na vida conjugal eram estimados e amados, mas quando se leu nos livros de Lutero que o estado conjugal é uma invenção dos homens... logo os seus conselhos foram de tal modo atuados que, relativamente ao matrimônio há quase mais honestidade e dignidade na Turquia que entre os nossos evangélicos da Germânia”.

Lutero e Calvino vituperaram o culto dos santos, mas acabaram sendo cultuados como santos à moda evangélica. Incorreram nas mesmas contradições a respeito da família. Vitral da igreja evangélica de Wiesloch, Baden-Wurtenberg, Alemanha.
Lutero e Calvino vituperaram o culto dos santos,
mas acabaram sendo cultuados como santos à moda evangélica.
Incorreram nas mesmas contradições a respeito da família.
Vitral da igreja evangélica de Wiesloch, Baden-Wurtenberg, Alemanha.
Fonte: Fr. Staphuylus, Nachdruck zu Verfechtung des Buchs vom rechten wahren Vorstandt des goettichen Worts, etc., Ingolstadt, 1562, fol. 202 b.

Com a degeneração do matrimônio a mulher caiu no desprezo e na ignomínia. Mais que nenhum outro, para isso contribuiu Lutero com uma indignidade sem nome. Para o reformador a mulher não passa de “um animal estúpido” (Weimar, XV, 420), simples instrumento de satisfações sensuais do homem. Na vilania de sua linguagem, chega compará-la a uma vaca prenhe: 

“também as mulheres se cansam e finalmente arrebentam durante a gestação; não importa, deixá-las arrebentar, são para isso”. Erl. XX, 84.

Façamos ponto aqui. Repugna-nos transcrever citações como estas.

Fonte: LUMEN RATIONIS
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